Martinho Júnior, Luanda
1 – O governo da Presidente Dilma foi o único dos governos da CPLP que eu até à data saiba, a condenar o episódio do sequestro do Presidente Evo Morales da Bolívia e ao mesmo tempo referir que o governo português de turno deveria pedir desculpas à Bolívia e à América Latina!...
Creio que isso não se deve apenas ao facto do Brasil não querer descolar dos seus pares latino americanos, mas também:
- Por que a Presidente do Brasil é um dos dirigentes que está por dentro dos esforços de independência e integração na América a sul dos Estados Unidos;
- Por que tem presente na sua própria memória os anos de chumbo a que também o Brasil foi sujeito quando uma ditadura guiada por Washington um dia foi imposta;
- Por que sabe que na América Latina ocorreu um dia a Operação Condor e na Europa a Operação Gladio, cujos operacionais se chegaram a combinar, espalhando-se pelos dois lados do Atlântico, ou seja, também por África;
- Por que o Brasil, fazendo parte dos BRICS, tem apesar de tudo outra inteligência nos relacionamentos internacionais e na esquadria dos interesses concorrenciais;
- Por que pode avaliar que as redes “stay behind” ao serviço da hegemonia unipolar anglo-saxónica não acabaram com a Guerra Fria, antes têm tido aproveitamentos a coberto do espaço que aos políticos, diplomatas e militares é permitido pelas democracias representativas, em particular a dos países enquadrados na OTAN;
- Por que avalia quanto as operações de inteligência dos serviços norte-americanos e de seus aliados, que incluem a espionagem electrónica das comunicações globais, estão inter-dependentes, inter-relacionados e são amplamente estimuladas em relação à atenção que lhes tem merecido a grande manipulação geo estratégica que constitui o “terrorismo”, conforme revela também este caso tão “transcendental” de Edward Snowden.
2 – Em África por exemplo há indícios fortes que os operacionais da “Aginter Press” que actuavam em Portugal em reforço da PIDE/DGS na esteira da Operação Gladio, contribuíram para os assassinatos de Eduardo Mondlabe, primeiro Presidente da FRELIMO (3 de Fevereiro de 1969) e de Amílcar Cabral, primeiro Presidente do PAIGC (20 de Janeiro de 1973)!
O assunto é ainda de tal maneira sensível em Portugal, que só uns poucos o abordam, quando o Portugal após o 25 de Abril deveria ser dos primeiros a procurar fazê-lo!
Tem-se constatado que são a maior parte das sensibilidades sócio-políticas ligadas ou indexadas aos partidos do “arco do governo” que em relação a isso mais têm feito por esquecer.
Esse facto não deixa de ter significado para um observador que aborde o tema com os olhos do Sul: diz o ditado que quem cala, consente, mas os indícios apontam efectivamente para algo mais.
Os governos europeus, calando há várias décadas, não só consentem, como continuam a sofrer manipulações de agentes “stay behind” que respondem à OTAN que agora são utilizados e até são capazes de estudar o momento para agir… haja oportunidade para tal!
A actuação de Paulo Portas em relação ao sequestro do Presidente Evo Morales do Equador é um exemplo desse padrão de agentes e as “questões técnicas” que justificam a posição do governo português é uma mensagem tão propositadamente inócua… que denuncia com proverbial clareza onde e com quem aprendeu quem rege a diplomacia portuguesa!
Na Europa como na América Latina muitos aprenderam com os manuais que foram concebidos desde a IIª Guerra Mundial, os manuais que um dia forjaram as Operações Condor e Gladio e forjam as actuais operações na Líbia, no Mali, na Somália, no Iémen, no Iraque, na Síria, no Af/Paq, onde quer que seja…
3 – As transformações que o mundo tem sofrido afectaram sobremaneira as relações internacionais e Portugal ao sofrer a ditadura do capital, tem um governo capaz de fascismo no seu carácter e na personalidade de muitas das suas personalidades!
O servilismo de alguns em Portugal tem sido amiúde assinalável, quantas vezes a coberto da OTAN!
Quantas vezes isso acontece em prejuízo da soberania e do povo português?
Portugal não tem interesse directo algum em participar em operações por exemplo nos Balcãs, ou no Af/Paq e isso testemunha que toda a sua doutrina estratégica, diplomática e militar tem as condicionantes da OTAN ou tem a OTAN como especial referência!
Essas são condicionantes que têm sido “interiorizadas” por sucessivos governos de turno, repito, de há décadas a esta parte!
As elites políticas, diplomáticas e militares portuguesas têm consciência do papel de subserviência em relação à hegemonia e aos seus explícitos instrumentos, entre eles a OTAN!
Se Portugal antes não podia combater em África o movimento de libertação sem acesso aos arsenais e à inteligência da OTAN, não pode hoje ter relacionamentos bilaterais ou multilaterais diplomáticos, de inteligência, ou mesmo militares, sem a cobertura doutrinária e institucional daquela organização, tendo muitos dos seus políticos, oficiais de inteligência e militares aprendido no terreno as verdadeiras regras que são impostas às redes “stay behind”… também nos países que constituem a CPLP!...
Recomendo uma leitura atenta ao Conceito Estratégico de Defesa Nacional 2013, verificando o escalonamento das êmfases geo estratégias e o lugar que por tabela está conferido à CPLP!
O Brasil sabe-o e não perdeu esta oportunidade para colocar o dedo numa ferida que é tão profunda quanto histórica!
Se nos outros países CPLP tal não acontece, é sinal mais que evidente que o “stay behind” da hegemonia e da OTAN, que é feito com o concurso de uma panóplia de meios que incluem os que fluem de Portugal, já está instalado através de alguns elementos das suas elites políticas, diplomáticas e militares!
Angola, sem ferir os interesses do bom povo português, tem uma oportunidade para, além de colocar o dedo na ferida, rever as relações bilaterais com o governo de Portugal, em particular no que diz respeito àquelas que afectam o seu sistema diplomático, de inteligência e militar!
É imperdoável ficar-se eticamente mudo e quedo perante as anormalidades típicas do colonialismo que em África são conhecidas de há séculos a esta parte!
África deve honrar a memória e os ensinamentos dos seus melhores filhos como Eduardo Mondlane e Amílcar Cabral, honrando sua própria história!
A construção da democracia em qualquer parte do mundo só poderá ser feita de forma saudável, digna e equilibrada, ou então torna-se num embuste, numa grosseira manipulação, num prolongado acto de opressão dos povos e num estado latente de tensão ou de guerra… à mercê das redes “stay behind” e com poderes que não se importam, muito pelo contrário, com o grau de ingerência que tem vindo a assumir a espionagem controlada pelo poder de que se nutre a hegemonia!
Na CPLP, os outros membros não têm de se assumir necessariamente como o actual governo português, servil, subserviente e mercenário!
Gravura: PRISM - fluxos de comunicações controladas pela NSA, segundo as divulgações feitas por Edward Snowden.
A consultar:
- Dilma quer que Portugal peça desculpa à Bolívia –
- Colonialismo e o atentado contra Morales – http://jornaldeangola.sapo.ao/opiniao/artigos/colonialismo_e_o_atentado_contra_morales
- Grande gafe diplomática francesa – http://jornaldeangola.sapo.ao/opiniao/artigos/grande_gafe_diplomatica_francesa
- NSA Leaker Edward Snowden In His Own Words: "You’re Being Watched" – http://www.democracynow.org/2013/7/4/nsa_leaker_edward_snowden_in_his
- Declaração de Cochabamba – http://www.odiario.info/?p=2935
- The servility of the satelites – http://www.counterpunch.org/2013/07/05/the-servility-of-the-satellites/
- Conceito estratégico de defesa nacional – http://www.portugal.gov.pt/media/909457/20130405_cedn_publicacao_oficial.pdf; http://www.operacional.pt/docs/Conceito%20Estratégico%20de%20Defesa%20Nacional%202013.pdf
- Os novos rumos do conceito estratégico – http://database.jornaldefesa.pt/politicas_de_defesa/portugal/JDRI%20058%20200613%20conceito%20estrategico.pdf
- 2013. O ano dos assuntos de defesa para a EU – http://database.jornaldefesa.pt/organizacoes_internacionais/ue/JDRI%20054%20180513%20cimeira%20ue.pdf
- 2012 POSTURE STATEMENT: Statement of General Carter Ham Before House Armed Services Committee – http://www.africom.mil/NEWSROOM/Article/8832/2012-posture-statement-statement-of-general-carter
- US national security strategy – http://www.revistamilitar.pt/artigo.php?art_id=806

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