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Saturday, October 19, 2013

Portugal–Manifestação: QUASE 100 MIL EXIGEM DEMISSÃO DO GOVERNO E VAIAM CAVACO




O fantasma da Ponte 25 de Abril, em Lisboa, pairou uma vez mais sobre a direita portuguesa, incluindo governo e presidente da República. As centenas de autocarros, juntamente com as muitas centenas de automóveis e motos, desfilaram na ponte devido à proibição do governo de a manifestação da CGTP por ali desfilar a pé rumo a Lisboa. Recorremos ao blogue Balneário Público para recordar o que também nele foi escrito a propósito sob o título “Ponte, fantasma de Cavaco e do PSD”.
Nesse texto é referido: “Também no i online é manchete o medo da Ponte 25 de Abril. Compreende-se. Têm medo que se atravesse a ponte em manifestação. Pudera. É que em 1994 a “revolta da ponte” ajudou bastante a que o governo de Cavaco caísse. Eis o referido título: CGTP assegura que manifestação na ponte não põe em causa a segurança. Arménio Carlos, da CGTP, que organiza a manifestação, explica: “Temos fotografias de corridas na ponte enquanto o comboio passava, sem problemas, e quanto à segurança das pessoas, salientamos que o tabuleiro tem várias faixas de rodagem e que todo o controlo de acesso é feito na zona das portagens”. Sendo assim qual é o problema de segurança que evocam os liberais-fascistas para ditar que não se pode atravessar a ponte? É evidente que o fantasma ponte perdura na mente de Cavaco, dos cavaquistas, dos liberais-fascistas que ocupam Portugal e o mantêm refém.”
E depois sobre Cavaco e a ponte: "E agora mudemos para Cavaco, também em título do i: “PR. É urgente conciliar austeridade com crescimento e emprego”. Grande novidade que ele nos traz. O medíocre (para classificar com boa vontade) cada vez que abre a boca entra mosca ou saem vulgaridades. A competência de que tanto se arrogava não existe. Prevalece e sobressai a vulgaridade, quando não é superada pela imbecilidade. Como pode um país suportar por tanto tempo um PR assim? Como pôde um povo eleitor votar num colaborador da PIDE e entregar o ouro ao bandido? Foi na canção do bandido, já se viu. E agora? Agora o melhor é corrigir o que fez de errado ao ser enganado. Vamos à ponte, pois então. O medo dos liberais-fascistas também alimenta a nossa força. Mas sobretudo a força do povo provém da razão. E eles sabem isso muito bem. Por isso temem-nos. Por isso não esquecem o seu fantasma da ponte. Revolta da ponte que em 1994 deu ao palmarés de Cavaco Silva o único PM eleito que permitiu que a polícia disparasse sobre manifestantes. O resultado foi uma bala “perdida”: “Luís Miguel, o jovem baleado no “buzinão” da Ponte 25 de Abril, a 25 de Junho de 1994 – que ficou paraplégico. Cavaco impune e polícia impune. Mas o palmarés de Cavaco existe na pior das memórias. Neste caso como noutros."
Hoje, neste momento, após a realização da manifestação, em diferentes moldes vale a máxima que diz “nada se perde, tudo se transforma”. Assim aconteceu e a manifestação foi um sucesso que reuniu muitas dezenas de milhares de portugueses a exigirem a demissão do governo entre vaias a Cavaco Silva. À mesma hora, no Porto, cerca de 30 mil também se manifestaram com as mesmas exigências após passarem a pé pela Ponte do Infante rumo à Avenida dos Aliados. No total, entre Lisboa e Porto, foram cerca de 100 mil os que exigiram a demissão do governo. Exigência que não será tomada em consideração pelo governo, nem por Cavaco - o seu protetor. Nem por isso a contestação legítima e repleta de razões esmorecerá. No jornal Público pode saber mais. Para isso dali compilámos o que se segue. (Redação PG)
Silêncios de Cavaco são “inadmissíveis”, diz Arménio Carlos
Pedro Crisóstomo, Teresa Camarão, e Pedro Sales Dias - Público
CGTP agenda concentração em frente ao Parlamento para 1 de Novembro, dia da votação na generalidade do OE. Chuva forte que se abateu sobre Lisboa obrigou alguns manifestantes a desmobilizar. No Porto, a marcha faz-se a pé numa fila de dois quilómetros.
A chuva forte que começou a cair minutos antes de o secretário-geral da CGTP, Arménio Carlos, discursar obrigou alguns manifestantes a saírem do corredor central da concentração em Alcântara e a procurarem abrigos nos beirais dos edifícios, paragens de autocarros e entradas de armazéns. Uns aguardavam à chuva, outros protegidos de chapéu aberto ou mesmo debaixo das lonas do protesto.
A chegada à concentração em Alcântara, depois da “marcha sobre rodas” na Ponte 25 de Abril, em Lisboa, fez-se a pé pelas várias ruas que desembocam no corredor da rua João de Oliveira de Miguens até à Avenida 24 de Julho.
“Cavaco, é tua obrigação aceitar a demissão”, gritava-se no palco e entre a multidão que ia chegando e assistia virada para a ponte. Depois, foi Arménio Carlos, já a discursar, quem se dirigiu ao Presidente da República e ao Governo. De Cavaco Silva e do executivo, disse, são “inadmissíveis os silêncios” sobre aquilo que considerou serem as “chantagens” de Durão Barroso e da “senhora Lagarde” sobre o Tribunal Constitucional.


Fez um discurso voltado para a unidade dos trabalhadores. Para “juntar forças e vontades”, para juntar “posições”, para desenvolver “propostas comuns”, diria aos jornalistas pouco depois de discursar. No palco, deixou um apelo concreto: para a manhã de 1 de Novembro anunciou uma concentração junto à Assembleia da República onde nesse dia é votado na generalidade o Orçamento do Estado (OE) para 2014.

A data não foi escolhida ao caso. É uma acção contra o orçamento: para rejeitar a proposta do Governo, pedir a demissão do executivo e exigir eleições antecipadas. Mas é também uma acção numa data simbólica, contra a abolição do feriado do 1 de Novembro, que Arménio Carlos considerou ser um “roubo” dos trabalhadores.

“Este é o tempo que exige a participação de todos”, disse, apelando à participação de trabalhadores com vínculos efectivos e precários, funcionários públicos, reformados e desempregados e jovens.


CGTP não descarta greve geral

Antes, aconteceu a “marcha sobre rodas” da CGTP, com centenas de autocarros e carros numa fila compacta e marcha lenta e debaixo de um persistente buzinão. Foi uma das duas marchas que a Intersindical convocou para este sábado em Lisboa e Porto, duas acções de protesto que o secretário-geral da Intersindical, Arménio Carlos, esperava ver “com muita força, com muita dinâmica, com muita consciência”.
Os primeiros autocarros que saíram dos vários concelhos do distrito de Setúbal em direcção a Alcântara fizeram a travessia da ponte 25 de Abril com normalidade. Os veículos circulavam com a distância de segurança recomendada pelo Código da Estrada e, tal como a CGTP prometera, sem qualquer indício de bloqueio da ponte. O secretário-geral da CGTP, Arménio Carlos, que também fez a travessia num dos autocarros, dizia pelas 14h30 que o protesto estava a decorrer de forma "serena" mas com "muita azáfama".
A saída do líder da Intersindical fez-se do Marquês de Pombal, ponto de partida habitual de tantas outras manifestações na capital. E, ainda antes de arrancar num dos quatro autocarros ali concentrados para seguirem para a 25 de Abril, Arménio Carlos dizia ao que vinha: “Não estamos aqui apenas e só para contestar, estamos aqui também para mostrar que há caminhos alternativos que podem resolver os problemas do país e do povo”.
Questionado pelo PÚBLICO sobre o apoio que o secretário-geral da UGT deu ontem à acção de protesto deste sábado, relativizou as declarações de Carlos Silva e disse que o que está em causa na jornada da CGTP “é a defesa dos trabalhadores e da população portuguesa, independentemente do posicionamento político-sindical [de quem participa]”.
E mais do que diferenças, reforçou, é preciso unir esforços. Sem se querer adiantar sobre próximas acções de protesto, quando foi questionado sobre a possibilidade de convergência com a UGT para realizar uma nova greve geral, respondeu: “Uma coisa de cada vez”. E acrescentou: “Queremos construir unidade na acção e unidade na acção não se constrói [só] na unidade das cúpulas, das centrais, constrói-se na unidade dos trabalhadores. É por causa disso que vamos ter uma série de acções de luta muito significativas nas próximas semanas”.
30 mil desfilam no Porto

No Porto, onde a manifestação começou por volta das 15h20, a União de Sindicatos do Porto fala em perto de 30 mil pessoas mobilizadas para a travessia a pé da ponte do Infante. Mais de 100 autocarros chegaram nas últimas horas à cidade, avançou ao PÚBLICO João Torres, coordenador da estrutura sindical.
“São mais de 100 autocarros com trabalhadores dos distritos de Aveiro, Braga, Bragança e Vila Real. Aqui não há problemas de segurança”, disse. O líder sindical explicou ainda que o objectivo da manifestação “é a exigência nas ruas da demissão do Governo e da realização de eleições antecipadas”.
“O Governo não tem legitimidade para continuar o assalto aos bolsos dos cidadãos. Esperamos que o Tribunal Constitucional cumpra o seu papel”.
Pelas 16h15 o desfile estava a chegar à avenida dos Aliados, mas ainda há pessoas a passar a ponte do Infante, onde se iniciou a marcha. O desfile tem mais de dois quilómetros de extensão.
Leia mais em Público
Está a juntar-se um mar de gente em Roma contra as políticas de austeridade

GOVERNO E CAVACO: INCONSTITUCIONALISTAS

 

Balneário Público
 
Os ataques e pressões ao Tribunal Constitucional, quer pelos partidos do governo quer pela Comissão Europeia e o seu presidente Durão “Cherne” Barroso, são uma ação concertada que ainda envolve entidades avulso da área financeira e outros liberais-fascistas. A legitimidade de veicularem as suas opiniões enquanto cidadãos é indiscutivel, porém, no caso de elementos do governo e da Comissão Europeia, essas declarações são legitimamente consideradas ataques e pressões ao TC. Isso é inadmissivel e ofensivo da soberania de Portugal. Representa o desrespeito que comummente é manifestado pelo governo relativamente à Constituição que jurou cumprir e um atentado ao respeito que a Constituição e o TC de Portugal devem merecer à Comissão Europeia, sendo que Portugal é um estado de pleno direito da UE. Pasme-se, ou talvez nem por isso, que assistimos ao completo aquiescer ou assobio para o lado do presidente da República Cavaco Silva. Aquele PR que igualmente jurou cumprir e fazer cumprir a Constituição (mas que não o tem feito como deve). Sendo assim não é de estranhar que Cavaco tenha deixado em claro a intromissão, deselegância e ofensa saída da boca do representante da Comissão Europeia em Portugal e muito menos do seu presidente Barroso – amigo, correlegionário e liberal-fascista, empoleirado na Europa, que serve de mordomo, serviçal e criada de quarto a um qualquer aparentado hitleriano que surja num golpe de mágica tenebrosa como salvador da crise fabricada pelos seus (deles) amigos banqueiros e a alta finança global em conluio. Apesar de tudo, pese embora tantas pressões parece que não se vislumbram indícios de que o TC vá ceder. Por parte dos portugueses o que se espera é que o TC cumpra a sua função com todo o respeito ao disposto na Constituição e que aquilo que for inconstitucional neste Orçamento de Estado assim seja declarado. A Portugal e aos portugueses já basta terem eleito ao engano um governo de sabujos desonestos e golpistas protegidos por um PR que não lhes fica muito atrás nos procedimentos e desempenho do cargo. Do mal o menos, que o TC faça o que deve no restrito cumprimento das suas funções, já que nem governo, nem PR o fazem. Compreende-se, mas é de repudiar que assim procedam, afinal são inconstitucionalistas.
 
Otávio Arneiro
 
Leia mais em Balneário Público
 

Angola: INSULTO DE LISBOA

 


Álvaro Domingos – Jornal de Angola, opinião – 19.10.2013
 
O Bloco de Esquerda em Portugal beneficia de indulgência e compreensão porque os seus mais importantes dirigentes ainda não sabem como devem apresentar-se ante a sociedade. Prometeram uma prática política diferente, sobretudo ao nível das lideranças. Mas em breve surgiu Francisco Louçã dizendo que o partido era ele, num arremedo de Rei Sol com tiques evidentes de Menino de Deus.
 
Os outros dirigentes sentados à mesa da liderança comeram e calaram. Mas o desastre eleitoral nas últimas legislativas ditou o afastamento do rei, que uma vez morto foi substituído por Catarina Martins, uma simpática bloquista bojuda, histriónica, politicamente assim-assim e sem a noção do que é ser líder de um partido com representação parlamentar. O cabotinismo é um adorno desaconselhável.

A humilhação que foi infringida ao Bloco de Esquerda pelos eleitores portugueses nas recentes eleições autárquicas deixaram o resto da “mesa” em fanicos e agora é o salve-se quem puder e o último a sair que enterre João Semedo, um verdadeiro erro de casting que merecia melhor sorte, dada a sua inegável qualidade política. Os ratos começaram a abandonar o navio logo no primeiro desaire eleitoral. Um deles assentou praça no “Expresso” e para compor a ração, dispara tiro instintivo contra Angola.

O bufão sobrevive rente ao chão, acotovelando vermes e minhocas, para ter algum espaço que lhe permita apodrecer. Um dos seus últimos bafos é altamente condenável. Chamou mercenários aos portugueses que labutam em Angola. Ainda que o biltre não mereça resposta nem responso, por uma questão de solidariedade temos de reprovar semelhante afronta.

Os portugueses que trabalham em Angola são gente boa e desempenham as suas tarefas com competência e profissionalismo. Estão sempre disponíveis. Respeitam os angolanos e muitos já constituíram cá família. Outros, depois do período de adaptação, trouxeram mulheres e filhos. Regra geral, os portugueses são os mais entusiastas e activos agentes da reconstrução nacional. Não merecem que um bloquista oportunista lhes chame mercenários.

Porque apesar de terem sido acolhidos em Angola fraternalmente, quase todos têm saudades da sua pátria e enviam todos os meses para Portugal as suas poupanças. As remessas dos emigrantes portugueses que trabalham em Angola estão em terceiro lugar, depois da França e da Suiça. Também por isso não merecem que um escriba desalmado lhes chame mercenários.

Mas sobretudo porque o Bloco de Esquerda tem grandes responsabilidades na situação em que Portugal hoje se encontra e que levou centenas de milhares de portugueses a deixaram a sua terra natal, as suas casas, as suas famílias e os seus amigos. A direita deu a Louçã e seus acólitos todo o espaço nas televisões, rádios e jornais. Eram as estrelas da companhia. Como resultado dessa exposição mediática, o Partido Comunista enfraqueceu.

Como a receita funcionou bem, a direita pôs Francisco Louçã e os seus papagaios a atacar o Governo do engenheiro José Sócrates, o melhor que Portugal teve depois do 25 de Abril. Num quadro de gravíssima crise internacional e particularmente na Zona Euro, o Bloco de Esquerda ajudou a direita a derrubar José Sócrates, escancarando as portas à Troika que desde então, confisca tudo quanto é dinheiro aos portugueses que vivem dos seus salários e das suas pensões e reformas.

Chamar mercenários aos portugueses que cá trabalham é uma indignidade revoltante. Se aqueles que são a voz oficial de Pinto Balsemão vivessem em Angola, se vissem os olhares tristes de muitos portugueses que deixaram tudo para trás para poderem sobreviver e manter as suas famílias, não se atreviam a semelhante monstruosidade.

Em Angola não há portugueses mercenários. São todos bons cidadãos, trabalhadores, educados e responsáveis. A direcção do Bloco de Esquerda só tem um caminho: desautorizar imediatamente o farsante que ousou insultar milhares e milhares de portugueses que além de estarem a governar as suas vidas e as dos seus familiares, ainda mandam remessas de dinheiro para que a garotada que tomou de assalto a política portuguesa se divirta à grande e à francesa. Para aqueles que são a voz oficial de Pinto Balsemão não há crise. Nadam todos em dinheiro. Por isso, a infâmia é ainda mais condenável.

Os mercenários portugueses estão todos em Lisboa e os mais desprezíveis pertencem ao império mediático de Pinto Balsemão.

Leia mais em PG
 

CAVACO SILVA DEFENDE REGIME ANGOLANO COMO QUALQUER DITADOR

 


Os textos que se seguem são parte integrante do semanário angolano Folha 8 na sua última edição em 12 de outubro, que temos vindo a publicar na disponibilidade possível. A abordagem que visamos relaciona-se com as declarações de Cavaco Silva, ontem, chegadas a Portugal. Cavaco (junto com Passos Coelho) está na América Latina na Cimeira Ibero-Americana, que se realiza no Panamá. 
 
Foi evidente que aquele presidente da República Portuguesa encaixa perfeitamente na expressão “mais papista que o Papa” (mais ditador que o ditador) quando pretende proceder a uma lavagem do regime ditatorial angolano desde há mais de trinta anos, referindo simplesmente que Angola é um país democrático, que foi a eleições e tem orgãos legítimos manifestados pela vontade do povo angolano (TSF). Mas os mais de trinta anos de ditadura declarada, sem eleições presidenciais - e legislativas (menos anos) – nada contam para Cavaco. Nem a atualidade de democracia de faz-de-conta vigente em Angola (que Portugal vai procurando imitar).
 
Nem contam as muitíssimas dúvidas e incidentes ocorridos e referidos pela comunidade internacional observadora sobre o modo como decorreram as eleições presidenciais (por exemplo). E não contam também prisões de jornalistas, assassinatos de opositores, nem desaparecimentos, nem a repressão e violência policial-presidencial-governamental – para não lhe chamarmos terrorismo de estado. Nada conta para Cavaco sobre isso e muito mais que é adverso aos regimes democráticos. O que significa que Cavaco indicia que tem inveja de Eduardo dos Santos e do seu regime. Razão plausivel (e por cifrões sujos ou não) porque um PR de país europeu dito democrático defende regime angolano - mascarado de democracia - como qualquer ditador. Os angolanos (ou os portugueses) que se lixem. Quem nos dera que assim não acontecesse.
 
Seguem-se as “caixas” do Folha 8 com opiniões diversas sobre a “novela” Rui Machete em Angola e os seus armários a transbordar de esqueletos. (Redação PG – CT)
 
“PORTUGAL VAI PERDER COM ATITUDE DE SUBSERVIÊNCIA FACE AO PODER DE ANGOLA”
 
O professor de Economia na Univer­sidade Católica de Luanda e líder do Bloco Democrático Justino Pinto de Andrade disse que as declarações de Rui Machete deram “uma má ima­gem de Portugal” em Angola.
 
No quadro das relações entre Portu­gal e Angola, presente e futuro não podem ser encara­dos da mesma forma. Se, no presente, Portugal pode ga­nhar com uma cumplicidade com Angola, no futuro o mais certo é vir a “perder”. “As elites políticas” de Lisboa no relacionamento com o poder em Luanda passam a linha da cumplicidade para o campo da “subserviên­cia”. Para ele as declarações do ministro Rui Machete dão “uma má imagem” de Portugal em Angola. Algo que vem na sequência de comportamentos anteriores e que, ao contrário do que podem pensar os políticos portugueses, “não ajuda a fomentar as relações entre os dois países”.
 
A cumplicidade entre Portugal e Angola pode trazer “um maior fluxo” de comércio e investimentos, mas “só no curto prazo”, considerou o analista. “Se olhar para o futuro, Portugal vai perder muito. As autoridades an­golanas não respeitam quem se põe de joelhos. É uma forma muito negativa de relacionamento.” Esta posição “é muito má para a imagem de Portugal”, considerou ao Público Justino Pinto de Andrade. “As pessoas pensam que ficando de joelhos fomentam as relações entre os dois países”. “É o contrário.” As investigações abertas em Portugal são referentes a suspeitas de actos em território português, nota Justino Pinto de Andrade. A “promiscuidade entre a Justiça e a política” em Angola impede “o apuramento” das suspeitas de “actos ilícitos que envolvem entidades angolanas”, realça. “Se os actos ilícitos que envolvem as entidades angolanas em ter­ritório português fossem investigados, nós em Angola teríamos melhor forma de pressionar os políticos cor­ruptos”.
 
MACHETE RECUSOU RESPONDER SOBRE DIREITOS HUMANOS EM ANGOLA
 
A deputada do Bloco de Esquerda Helena Pinto considera que a situação do ministro de Estado e dos Ne­gócios Estrangeiros de Portugal, está “sem retorno e sem saída”, no caso da entrevista a RNA. “O problema reside nas funções que desempenha, um ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros não fala por si próprio nem faz interpretações pessoais e políticas quando fala aos microfones de uma estação estrangeira”, afirmou. Ainda durante a interpelação, a deputada de Esquerda, quis saber qual será a posição da diplo­macia portuguesa na próxima cimeira bilateral face às violações dos direitos humanos em Angola.
 
Após o silêncio de Machete em relação à posição que Portugal iria defender na próxima cimeira com Angola no que respeita aos direitos humanos, Hele­na Pinto voltou a questioná-lo sobre o assunto, por­que “todos sabemos o que é que se passa em Angola e não podemos fechar os olhos”, concluiu.
 
LAMENTÁVEL EXERCÍCIO DE SUBSERVIÊNCIA
 
O “pedido de desculpas” que o ministro dos Negócios Estrangeiros português efectuou à Rádio Nacional de Angola não foi um pedido de desculpas ao povo de Angola, ao contrário do que diz Rui Machete, mas um lamentável exercício de subserviência pe­rante a elite do MPLA que trata Angola como sua propriedade privada.
 
Diz o ministro que tal “pedido de desculpas” teve como objectivo contribuir para o “apaziguamento na relação entre os dois países”. Para justificar o injustificável in­ventou um problema inexistente. Não existe nenhum problema nas relações entre os dois países e muito menos entre os dois povos.
 
As declarações do ministro envergonham os portugueses. São um pedido de des­culpas, isso sim, por Portugal ser uma democracia onde é a Justiça, e não o Gover­no, que decide as investigações judiciais.
 
A economia portuguesa está a viver momentos complicados, muitos dos quais cria­dos ou agravados pelo atual Governo, mas nada permite (a começar pela dignida­de) que se estenda uma passadeira vermelha para qualquer tipo de investimento, incluindo o que tem a ver com branqueamento de dinheiro ou resulta da corrupção e pilhagem dos recursos de outros países.
 
João Semedo - dirigente do Bloco de Esquerda
 
Inserido em "caixas" no título “QUEIROZMATOZOIDE”DO DISCRIMINATÓRIO JORNAL DE ANGOLA DEFENDE MACHETE", em Folha 8 – edição 12 outubro 2013 – já publicado em Página Global
 

Friday, October 18, 2013

QUEM SÃO OS TERRORISTAS?

 


Renan Cavalcante Eugenio, São Paulo – Opera Mundi
 
Independentemente das características, atos de governos nunca são taxados de terroristas
 
Desde os ataques às torres gêmeas e outros locais dentro dos Estados Unidos, em 2001, a palavra terrorista se tornou frequente na mídia. De lá para cá, a paranoia coletiva de novos atentados fez com que o termo surgisse em veículos de imprensa em toda tragédia não natural. O problema é que muitas das vezes o termo acaba sendo usado de forma incorreta. Mas quem é terrorista? E o que essa palavra realmente significa?

De acordo com o segundo verbete do dicionário Houaiss define terrorismo da seguinte forma:  “Emprego sistemático da violência para fins políticos, especialmente a prática de atentados e destruições por grupos cujo objetivo é a desorganização da sociedade existente e a tomada do poder; terror”.

Nem todos veem as coisas da mesma maneira que o Houaiss. O linguista, filósofo e ativista político Noam Chomsky vê a utilização do terror como forma política e, também, como uma arma do imperialismo. Para ele, os Estados Unidos são um estado líder em terrorismo, tendo cometido atentados em diversas partes do mundo para manter seus interesses políticos e econômicos. Ele cita os ataques ocorrido em 1998 às instalações farmacêuticas da empresa Al-Shifa, no Sudão, como sendo um dos exemplos de terrorismo de estado.

Chosmky também fala sobre o uso propagandístico do termo. Os estados o utilizam para taxar seus inimigos. Os nazistas chamavam os partisans, membros da resistência, de terroristas e empregavam táticas de contraterrorismo para acabar com suas atividades em toda a Europa. Hoje diversos grupos ganham tal denominação apenas por se oporem a alguns governos.

Na mídia a utilização do termo também é envolto em questões filosóficas e políticas. O editor de mundo da Folha de S. Paulo, Fábio Zanini, explica que o uso consensual do termo nos jornais é: o ataque de um ente não estatal contra uma população civil por motivo político. Mas ele ressalta que muitas injustiças são cometidas por isso. “Se um exército fizer a mesma coisa, não é terrorismo”, afirma. E exemplifica, “quando os palestinos atacam Israel, é terrorismo. Quando Israel ataca crianças na faixa de gaza, não é terrorismo”.

Com várias definições para a mesma palavra, o certo é que o terrorismo, independente da motivação, sempre atinge a vida de milhares pessoas inocentes.
 
Leia mais em Opera Mundi
 

NOVO JOGO, NOVA OBSESSÃO, NOVO INIMIGO – AGORA É A CHINA

 

John Pilger
 
Países são "peças num jogo de xadrez sobre o qual está a ser efectuado um grande jogo para a dominação do mundo", escreveu Lord Curzon, vice-rei da Índia, em 1898. Nada mudou. O massacre no centro comercial em Nairobi foi uma fachada sangrenta por trás da qual uma invasão em grande escala da África e uma guerra na Ásia constituem o grande jogo.

Os assassinos do centro comercial al-Shabaab vieram da Somália. Se algum país é uma metáfora, este é a Somália. Partilhando uma língua e religião comuns, os somalis foram divididos entre os britânicos, franceses, italianos e etíopes. Dezenas de milhares de pessoas foram passadas de uma potência para outra. "Quando se faz com que se odeiem entre si", escreveu um responsável colonial britânico, "a boa governação está assegurada".

Hoje, a Somália é um parque temático (theme park) de divisões artificiais brutais, um país há muito empobrecido pelos programas de "ajustamento estrutural" do Banco Mundial e FMI e saturado de armas modernas, nomeadamente aquela da preferência pessoal do presidente Obama: o drone. O único governo estável somali, o dos Tribunais Islâmicos, era "bem aceite pelo povo nas áreas que controlava", relata o US Congressional Research Service, "[mas] recebia cobertura negativa da imprensa, especialmente no Ocidente". Obama esmagou-o e, em Janeiro, Hillary Clinton, então secretária de Estado, apresentou o seu homem ao mundo. "A Somália permanecerá grata pelo apoio resoluto do governo dos Estados Unidos", rejubilou-se o presidente Hassan Mohamud, "obrigado América".

A atrocidade do centro comercial foi uma resposta a isto – assim como o ataque às Torres Gémeas e as bombas de Londres foram reacções explícitas à invasão e injustiça
[NR]. Outrora de pouca importância, agora o jihadismo marcha em uníssono com o retorno do imperialismo descarado.

Desde que em 2011 a NATO reduziu a Líbia moderna a um estado hobbesiano, os últimos obstáculos para [o avanço sobre] a África caíram. "Disputas por energia, minerais e terra fértil provavelmente ocorrerão com intensidade crescente", relatam planeadores do Ministério da Defesa. Eles prevêem "números elevados de baixas civis", portanto "percepções de legitimidade moral serão importantes para o êxito". Sensível ao problema de RP de invadir um continente, o mamute das armas, a BAE Systems, juntamente com o Barclay Capital e a BP advertem que "o governo deveria definir sua missão internacional como administradores de risco em nome dos cidadãos britânicos". O cinismo é letal. Governos britânicos são reiteradamente advertidos, nada menos que pelo comité de inteligência e segurança parlamentar, que aventuras estrangeiras chamam por retaliações em casa.
 
Com o mínimo de interesse dos media, o US African Command (Africom) instalou tropas em 35 países africanos, estabelecendo uma rede familiar de pedintes autoritários ansiosos por subornos e armamentos. Em jogo de guerra, uma doutrina "soldado por soldado" embebe oficiais dos EUA em todos os níveis de comando, desde o general até o primeiro-sargento. Os britânicos fizeram o mesmo na Índia. É como se a orgulhosa história de libertação da África, desde Patrice Lumumba até Nelson Mandela, fosse remetida ao esquecimento pelos mestres de uma nova elite colonial negra cuja "missão histórica", advertiu Frantz Fanon meio século atrás, é a subjugação do seu próprio povo para a causa de "um capitalismo desenfreado embora camuflado". A referência também é adequada ao Filho da África na Casa Branca.

Para Obama, há uma causa mais premente – a China. A África é a história de êxito da China. Onde os americanos trazem drones, os chineses constroem estradas, pontes e barragens. O que os chineses querem é recursos, especialmente combustíveis fósseis. O bombardeamento da Líbia pela NATO expulsou 30 mil trabalhadores chineses da indústria petrolífera. Mais do que o jihadismo ou o Irão, a China é agora a obsessão de Washington na África e para além dela. Isto é uma "política" como o "eixo para a Ásia", cuja ameaça de guerra mundial pode ser tão grande como qualquer outra na era moderna.

A reunião desta semana em Tóquio do secretário de Estado John Kerry e o secretário da Defesa Chuck Hagel com os seus homólogos japoneses acelerou a perspectiva de guerra com o novo rival imperial. Sessenta por cento das forças navais dos EUA estão para serem baseadas na Ásia em 2020, tendo a China como objectivo. O Japão está a rearmar-se rapidamente sob o governo de direita do primeiro-ministro Shinzo Abe, que chegou ao poder em Dezembro com uma promessa de construir uma "nova e forte força militar" e contornar a "constituição pacífica". Um sistema de mísseis anti-balísticos dos EUA e Japão, próximo de Quioto, é dirigido à China. Utilizando drones Global Hawk de longo alcance, os EUA aumentaram drasticamente suas provocações nos mares a Leste e ao Sul da China, onde Japão e China disputam a propriedade das ilhas Senkaku/Diaoyu. Aviões avançados de descolagem vertical agora estão instalados no Japão; o seu propósito é a guerra relâmpago (blitzkrieg).

Na ilha de Guam, no Pacífico, a partir da qual os B-52s atacavam o Vietname, a maior acumulação militar desde as guerras da Indochina inclui 9.000 Fuzileiros Navais dos EUA. Na Austrália esta semana, uma feira de armas e um festival (jamboree) militar que divertiu grande parte de Sidney, está em consonância com uma campanha de propaganda do governo para justificar uma acumulação militar sem precedentes desde Perth até Darwin, destinada à China. A vasta base estado-unidense em Pine Gap, próxima de Alice Springs, é, como revelou Edward Snowden, um centro de espionagem dos EUA na região e para além dela; e também crítico para os assassinatos de Obama à escala mundial através de drones.

"Temos de informar os britânicos para mantê-los do nosso lado", disse certa vez um secretário de Estado assistente dos EUA, McGeorge Bundy, [ao passo que] "vocês na Austrália estão connosco, aconteça o que acontecer". Forças australianas desde há muito desempenham um papel mercenário para Washington. Contudo, há uma dificuldade. A China é a maior parceira comercial da Austrália e em grande parte foi graças a ela que a Austrália escapou à recessão de 2008. Sem a China, não haveria boom de minérios: nenhum rendimento mineiro de mais de mil milhões de dólares por semana.

Os perigos que isto apresenta raramente são debatidos em público na Austrália, onde o patrão do primeiro-ministro Tony Abbott, Rupert Murdoch, controla 70 por cento da imprensa. Ocasionalmente, manifesta-se ansiedade sobre a "opção" que os EUA querem que a Austrália faça. Um relatório do Australian Strategic Policy Institute adverte que quaisquer planos dos EUA para atacar a China envolveriam "cegar" a vigilância chinesa, seus sistemas de inteligência e comando. Isto "consequentemente aumentaria as possibilidade de antecipação nuclear chinesa... e uma série de erros de cálculo de ambos os lados se Pequim perceber ataques convencionais à sua terra natal como uma tentativa de desarmar sua capacidade nuclear".

No seu discurso ao país do mês passado, Obama disse: "O que torna a América diferente, o que nos torna excepcionais, é que nos dedicamos a actuar".
 
[NR] É altamente contestável que o ataque do 11/Set tenha sido uma reacção à "invasão e injustiça". Este ataque pode ser comparado com o incêndio do Reichstag (ateado por ordem de Göring em 1933 a fim de culpar os comunistas e justificar as medidas nazis de excepção que se seguiram). Sobre o 11/Set ver por exemplo Another Nineteen: Investigating Legitimate 9/11 Suspects , de Kevin Robert Ryan, 2013, Microbloom, 418p., ISBN 978-1489507839.

O original encontra-se em
johnpilger.com/articles/old-game-new-obsession-new-enemy-now-its-china

Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/.
 

Portugal: O CONTÍNUO CICLO DO LIXO IRREVOGÁVEL

 

Ana Sá Lopes – jornal i, opinião
 
Dizer que isto não é um novo pacote de austeridade é chamar imbecil ao povo inteiro
 
Portas cobriu-se de ridículo na conferência de imprensa da sétima e oitava avaliações da troika - em que afirmou aos portugueses que não havia novo pacote de austeridade. Passos Coelho fez o mesmo na sessão na RTP. A apresentação do Orçamento do Estado deveria cobrir os dois de vergonha.
 
Afinal ainda havia quem acreditasse que com Portas aos comandos das negociações com a troika os colonizadores iriam ser convenientemente enfrentados e que, juntos, Portas e António Pires de Lima seriam o rosto de um alegado "novo ciclo" que chegaria no fim do arco-íris. Se a palavra de Paulo Portas não vale um avo neste momento, o partido dos pensionistas faleceu. Pires de Lima é mais elegante que Álvaro Santos Pereira e Paulo Portas tem mais capacidades comunicativas que Vítor Gaspar. As diferenças esgotam-se aqui, no meio do lixo, da depressão e da caminhada para o abismo.
 
O Orçamento do Estado é um documento vergonhoso, que privilegia os grandes interesses - a banca e as eléctricas - em detrimentos dos pobres e remediados, que são todos os funcionários públicos com um salário de 600 euros brutos. Um Orçamento que aumenta os gastos de funcionamento do próprio governo em níveis vergonhosos (os gabinetes vão gastar mais 3,3 milhões de euros que em 2012, época em que o primeiro-ministro anunciava que a austeridade começava dentro de portas), enquanto aniquila as pensões de reforma daqueles que nasceram noutros anos de chumbo e se esforçaram por nos entregar um país mais decente - e que agora sustentam os filhos desempregados por causa de uma política económica cega que trava o crescimento, a procura interna e a criação de emprego.
 
O que está em curso é o desmantelamento do país tal como o conhecemos, a reboque de uma experimentação económica comandada por pessoas que não elegemos (embora boa parte do governo em funções se identifique com o estoiro, na certeza de que do alto dos seus cargos e futuros cargos em grandes empresas nunca terão de se confrontar com as dificuldades do cidadão comum.
 
Já se sabia que o "novo ciclo" era uma mentira porque havia um compromisso prévio de corte de 4 mil milhões de euros. Mas quem falou do novo ciclo não foram os funcionários públicos, foram os partidos do governo, dolosamente. Dizer, como Portas e Passos Coelho, que isto "não é um novo pacote de austeridade", é chamar imbecil a um povo inteiro.
 
 

Portugal: SLN E AS DISSIMULAÇÕES DE CAVACO

 

Daniel Oliveira – Expresso, opinião
 
Em reação às acusações de Mário Soares sobre a ligação de Cavaco Silva ao BPN, o Presidente disse: "Devia saber que esclareci, em devido tempo, que nunca tive qualquer relação com o BPN ou com as suas empresas, a não ser a de depositante para aplicação de poupanças, quando era professor universitário. Esqueceu mesmo o esclarecimento que, pessoalmente, lhe foi prestado".
 
O que esclareceu nessa altura Cavaco Silva: "nunca exercera qualquer tipo de função no BPN ou em qualquer das suas empresas, nunca recebera qualquer remuneração do BPN ou de qualquer das suas empresas, nunca comprara ou vendera nada ao BPN ou a qualquer das suas empresas e que nunca contraira qualquer empréstimo junto do BPN". Cavaco usa o mesmo truque de Rui Machete: fala de comprar e vender coisas ao BPN, quando se sabe que as ações do BPN eram detidas, na sua totalidade, pela SLN. E que era à SLN que ele podia comprar ou vender seja o que for. E comprou. E vendeu. Está, portanto, a brincar com as palavras.
 
A 17 de Novembro Cavaco Silva e a filha, em cartas dirigidas a Oliveira Costa, separadas e no mesmo dia, deram ordem de venda das suas ações da SLN. Ações que foram compradas em 2001 por um euro e vendidas em 2003 por 2,4 euros. Cavaco Silva teve sorte, por elas valorizarem? Não propriamente, já que não estavam cotadas em bolsa. Foi Oliveira Costa que decidiu que seria este o lucro para o seu ex-primeiro-ministro: 147,5 mil euros. Já Patrícia, sua filha, com mais ações, lucrou 209,4 mil euros. Quem comprou as ações foi a própria SLN Valor, maior detentora da SLN.
 
Isto prova que Cavaco Silva teve responsabilidades no que aconteceu no banco onde se concentravam tantos ex-colegas de governo? Não. Nem sequer prova que Cavaco não estava, como afirmou várias vezes, a leste do que os seus amigos andavam a fazer. Pode mesmo ser muito distraído. Prova apenas uma coisa: que Cavaco Silva está a jogar com as palavras quando diz que nunca teve qualquer relação com o BPN ou com as suas empresas, a não ser como depositante. A frase é formalmente correta (a sua relação era com a SLN). Mas essa correção formal é irrelevante para o que está em causa.
 
Na campanha eleitoral isto foi assunto. Cavaco atirou para canto e a comunicação social, que nunca o incomoda muito, não aprofundou mais. Agora o tema volta, por causa de declarações de Mário Soares, e Cavaco repete a estratégia: ser suficientemente lacónico, remeter para esclarecimentos passados que nada esclarecem e esperar que passe.
 
Dirão que a compra e venda de ações da SLN nada diz sobre as relações de Cavaco com o gang do BPN. Não é bem assim. Não estando cotadas em bolsa, as ações da SLN só podiam ser compradas por convite. Cavaco nunca esclareceu se esse convite veio de Oliveira Costa, Dias Loureiro ou outro responsável pela sociedade. Sim, apesar de ser improvável, pode ter sido um gestor de conta do BPN a sugerir a compra das ações da SLN, sem qualquer intervenção do ex-primeiro-ministro, ex-colega e amigo de algumas das principais figuras da SLN. As dele e as da filha. Mas muito dificilmente o poderia fazer sem a sua autorização expressa. Uma coisa é certa: o valor da compra e o valor da venda destas ações (e o dinheiro que rendeu) foi decidido pelo próprio Oliveira Costa. E tudo indica que terá havido favorecimento no preço de entrada, já que estava subavaliado face aos preços que então se praticavam por ação - o aumento de capital tinha sido subscrito a €2,2, mais do dobro do que custou cada ação ao Presidente da República.
 
Até hoje, tirando umas frases formalmente certas mas factualmente irrelevantes, Cavaco Silva nunca esclareceu todas as questões que se levantam com o lucro inusitado que conseguiu com a compra e a venda de ações da SLN, cujos preços foram decididos pelo seu ex-secretário de Estado. Tendo em conta o que aconteceu com a SLN e o BPN e as fortes ligações políticas do Presidente da República a vários dos implicados, seria importante que o fizesse. Pode continuar a fingir que não se passa nada e continuar a confiar na suavidade da comunicação social. O que não pode é dizer que esclareceu tudo.
 
O assunto só continua a ser assunto porque Cavaco Silva se julga acima do escrutínio público, exigido a qualquer detentor de cargos públicos, e, por maioria de razão, ao chefe de Estado. Julga que basta dizer que "é preciso nascer duas vezes para ser mais honesto do que ele" para que mais nada tenha de ser explicado. Pouco interessa o que Cavaco Silva acha sobre a sua própria honestidade. Interessa apenas que não continue a enganar os portugueses sobre a verdadeira natureza da sua relação com a SLN/BPN (foi acionista e teve um lucro difícil de explicar) e não continue a achar que não deve dar esclarecimentos a ninguém.
 
As declarações de Mário Soares terão sido demasiado violentas ou menos felizes? Talvez, mas isso é o menos importante. Nem Mário Soares é o Presidente da República em exercício, nem as suas frases mais ou menos felizes custaram milhares de milhões de euros aos portugueses. Venham então, finalmente, a explicações completas de Cavaco Silva. Desta vez, sem jogos de palavras e autoelogios.
 
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Portugal: ORÇAMENTIRA

 


José Manuel Pureza – Diário de Notícias, opinião
 
Invariavelmente, os países que vivem sob o jugo dos "doadores" inventam um país que caiba nos impressos de autorização de despesa de quem tem o dinheiro. Inventam-se democracias, inventa-se liberdade de expressão, inventa-se pluralismo partidário, inventa-se desenvolvimento. E os doadores fingem acreditar em tudo isso. Porque enquanto o fingimento valer, os negócios que mais lhes convêm far-se-ão. Fingindo - e mantendo a mandar os seus homens de mão - os doadores acumulam vantagens económicas e políticas. Fingindo - e prestando vassalagem aos seus mandantes - as elites locais enriquecem à custa de povos exangues.
 
Em Portugal, chegámos àquele tempo em que a satisfação dos delírios dos credores é tão impossível que só mesmo a mentira mais retinta os pode servir. O Orçamento para 2014 é esse cínico exercício de mentira, em que ninguém acredita - nem a troika, nem o Governo, nem as pessoas - que só serve para falar de um país a fingir. Mas essa mentira disfarça a estratégia da verdade deste Orçamento: enquanto o fingimento valer, o assalto a tudo o que é público e a punição dos que o servem será sem limite.
 
A mentira deste Orçamento é feita de muitas mentiras. Refiro três. A primeira é a de que a diminuição da taxa de IRC para 23% determinará uma perda de receita fiscal de 70 milhões de euros. Sabendo que os cálculos da comissão que estudou esta reforma apontam para uma perda de 220 milhões de euros, as contas do Orçamento só seriam válidas se se pressupusesse que haverá um aumento dos lucros das empresas tributáveis em IRC da ordem dos 600 milhões de euros, para o que teria de haver um aumento fabuloso da produção e das vendas dessas empresas. Só acredita quem quer. Segunda mentira: o Orçamento aponta para um arrecadamento de 100 milhões de euros com a penalização das pensões de sobrevivência, baseando-se na existência de 25 mil pessoas viúvas que acumulam pensões acima dos dois mil euros. Os números não batem certo, por mais que se estique a taxa de tributação da viuvez. Só acredita quem quer. Terceira mentira: o cenário macroeconómico que serviu de base ao Orçamento prevê um crescimento do produto na casa dos 0,8%, não obstante a previsão de queda de 2,8% no consumo público e da manutenção do desemprego nuns dramáticos 17,7%. A isto acrescenta a invenção iluminada do crescimento (!) do consumo privado, mesmo depois dos cortes brutais nos salários e nas pensões. As exportações salvar-nos-ão, portanto. Só acredita quem quer.
 
Mas a mãe de todas as mentiras é a de que, cumprido este Orçamento, chegaremos enfim à redução drástica do défice e da dívida. Nisto já só acredita quem não quiser ver a realidade. Basta olhar para o caminho que fomos forçados a fazer: em 2012, o défice era de 10 600 milhões de euros, as medidas de austeridade foram de 5300 milhões, o défice desceu para 9700 milhões. 5000 milhões de sacrifícios para menos de 1000 milhões de abatimento do défice.
 
A confirmar estas mentiras, há verdades fortes neste Orçamento. 82% dos cortes serão suportados pelos funcionários públicos e pelos reformados, enquanto aos bancos e aos monopólios energéticos "será pedido um contributo" (pontual, claro) de 4% do ajustamento. Entretanto pagaremos 7200 milhões em juros da dívida e aumentaremos para 1650 milhões os gastos em parcerias público-privado. Mais do que o que gastamos em saúde e ensino. Onde estão afinal as gorduras?
 
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NÃO HÁ MACHETE QUE CORTE A RAIZ À INCOMPETÊNCIA

 

We Have Kaos in the Garden
 
Rui Machete escusou-se hoje a prestar mais declarações sobre as relações com Angola, mas admitiu "algum grau de preocupação". "Peço desculpa, mas falamos sobre o que vocês quiserem, sobre o México, como é que correu esta iniciativa. Sobre isso [a relação entre Portugal e Angola], o Governo fez um comunicado, que traduz aquilo que pensamos. Não faço mais declarações".

He, he, he, incompetente com um armário carregadinho de esqueletos e com tantos tectos de vidro a pergunta é quanto tempo se vai aguentar, mesmo sendo titular da pasta do governo em que normalmente os ministros conseguem ter maior popularidade. Pior não podia ser e até uma casa de jogo online já colocou uma aposta com uma data-limite: 1 de Novembro. O mais provável, segundo esta casa de apostas online, é que Rui Machete deixe o cargo, o que faz com que a aposta de um euro valha 1,25 euros em caso de vitória, enquanto um euro apostado na continuação do ministro possa valer 3,50 euros. Ao que chegámos.
 
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ANGOLA E A PARCERIA DO SILÊNCIO

 

Daniel Oliveira – Expresso, opinião
 
Quando Angola conquistou a independência, acho que a maioria dos portugueses, que conhecia pela primeira vez a liberdade, celebrou (ou pelo menos reconheceu) esse seu direito. E os que, como eu, são convictamente anticolonialistas nem sequer aceitam a ideia generalizada de que "fizemos mal a descolonização". Porque a frase vive, ela própria, de um preconceito colonial: a de que a descolonização é, antes de tudo, um gesto do colonizador e não do colonizado. De que a forma e o tempo dessa descolonização dependia sobretudo de Portugal e não da própria vontade dos angolanos. Pode ser discutido o processo de transição, gerido por um Estado a descobrir a democracia e, ele próprio, a viver um vazio de poder. Mas num cenário de luta pelo poder em Angola e de revolução em Portugal, não vejo como podiam as coisas correr melhor. Se a descolonização de Angola e restantes colónias portuguesas teve algum problema que não tivesse existido em quase todos os processos semelhantes foi o de ter vindo tarde demais.
 
Estes assuntos ainda são difíceis de tratar em Portugal. Por feridas políticas, mas também humanas. A dos que vieram de África (muitos nascidos nas ex-colónias), com a vida de novo a zeros, e as de ex-combatentes (que foram contra ou a favor da guerra). A história não se faz só de ideias. Faz-se de biografias pessoais. Imagino que o colonialismo português e a guerra civil que se seguiu à independência também seja assunto que agite muitas emoções em Angola. É por isso que quase tudo o que tenha a ver com as relações entre Angola e Portugal causa debates acalorados e acusações carregadas de ressentimentos.
 
Por isso, antes desta conversa, é preciso que não haja confusão: sou anticolonialista por convicção. Contra toda a espécie de colonialismos, novos e velhos, por via das armas ou do dinheiro. E de mim nunca alguém ouvirá derivações das patranhas luso-tropicalistas. Os portugueses foram tão criminosos na sua colonização como todos os impérios coloniais. Foram e são tão racistas como todos os povos podem ser. E também não sou dos que acham que os angolanos estão hoje pior do que estavam quando viviam sob o jugo colonial. Pelo contrário. Por mais injusta que seja na distribuição da sua riqueza, nunca Angola teria crescido como cresceu se, por absurdo, ainda fosse uma colónia portuguesa.
 
Resolvida a primeira acusação que, por oportunismo e falta de argumentos, é feita pelos apoiantes do governo de José Eduardo dos Santos aos portugueses que o critiquem, vou à segunda: não tenho nem alguma vez tive qualquer simpatia pela UNITA. Pelo contrário, sempre lhe devotei um razoável desprezo. Como só posso ter por quem colaborou ativamente com o regime do Apartheid e com a ditadura portuguesa e por quem pouco ou nada fez pela independência de Angola durante a guerra colonial. Considerava Jonas Savimbi um homem pouco recomendável e apenas o defendi quando foi assassinado e exibido ao mundo de forma cobarde e indigna. Também não faço retratos idílicos do passado do MPLA e muito menos do seu líder histórico, Agostinho Neto, que permitam dizer que a realidade de hoje resulta de uma degenerescência recente deste movimento político. A vergonhosa memória do dia 27 de maio de 1977 chegaria para que tal discurso fosse hipócrita. No entanto, sei que não há guerras civis e lutas armadas pelo poder sem crimes. Por isso, para não mexer em mais feridas, limito-me, sem ingenuidades, a colocar tudo isto na perspetiva da história. A guerra civil, as purgas, mas também o passado colonial português e o processo de descolonização. Resumindo: não estou ao serviço de nenhuma força revanchista, seja ela portuguesa ou angolana.
 
Esclarecido tudo isto, passo à triste novela que culminou num inaceitável pedido de desculpas do ministro dos Negócios Estrangeiros e na ameaça de José Eduardo dos Santos a Portugal, provando que quanto mais nos baixamos mais mostramos o que não queremos. O Ministério Público iniciou uma investigação a vários altos dirigentes políticos e económicos (é quase o mesmo) angolanos. Apesar de alguns serem conhecidos por um enriquecimento que nem os cargos públicos que ocupam, nem fortunas de família podem explicar, e que muitos dos seus negócios passam por Portugal, ninguém sabe se estas investigações têm ou não fundamento. Isso, apenas aos magistrados responsáveis por este processo diz respeito. O governo português não tem de pedir desculpas por ter um sistema judicial independente e por nada poder fazer para o travar. Os portugueses têm de se orgulhar disso e o governo não tem de abrir a boca sobre assuntos que não lhe dizem respeito. Muito menos publicamente. Muito menos para pedir desculpas.
 
Que não se enganem os angolanos: a razão porque o governo português pede desculpa nada tem a ver com respeito por eles ou pelo seu governo. É pura necessidade. Há um Portugal que precisa do dinheiro dos angolanos, que quer agradar ao seu ditador e aos que roubam o seu povo. Mas a verdade é que a maioria dos portugueses não vê um cêntimo do dinheiro do BIC ou do BES, do BPI, da GALP ou da ZON, que unem o Grupo Empresarial MPLA e o Grupo Empresarial Bloco Central. A minha vida não melhorou com os investimentos angolanos em Portugal, a da maioria dos angolanos não melhorou com os investimentos portugueses em Angola. A elite angolana limita-se a lavar dinheiro em Portugal, a comprar o silêncio cúmplice das nossas elites e a entrar na Europa pela porta dos fundos. E a elite portuguesa limita-se a tentar sacar uns trocos do pornográfico saque aos angolanos.
 
Da mesma forma que, no passado, alguns portugueses ignoraram os supostos interesses de Portugal em Angola em nome do direito à autodeterminação dos angolanos, pouco me interessam os supostos interesses de Portugal em Angola quando estão em causa valores fundamentais. Da mesma forma que os angolanos não aceitaram que a superioridade económica e militar dos portugueses esmagasse a sua vontade de viver num país independente, não podemos aceitar que a atual superioridade económica de Angola e do seu governo ponha em causa a nossa liberdade de imprensa e de expressão, a independência da nossa justiça e, acima de tudo, a nossa dignidade. Podem os escribas sabujos ao serviço da elite política angolana (alguns deles mercenários portugueses) vibrar com a nossa atual desgraça e vê-la como uma vingança histórica. Também os saudosistas do Estado Novo viram na guerra civil angolana a prova de que os angolanos nunca se saberiam governar sem nós. É a mesma mesquinhez ressabiada. Sou e serei solidário com os angolanos em todas as horas difíceis. E sei que os angolanos de bem também o são connosco, neste momento trágico que vivemos. Mas isso não nos impede, nunca nos poderá impedir, de falar do governo de Angola com a mesma frontalidade com que falamos do nosso. Não há ameaça velada de José Eduardo dos Santos (que quer comprar o silêncio de todos os portugueses através da chantagem, num tempo de necessidade), não há risco para os emigrantes portugueses em Angola, não há dinheiro de Isabel dos Santos, não há compras de grupos de comunicação social feitas por testas de ferro do governo de Luanda que possam travar o espírito livre de quem dá valor às suas convicções.
 
Sabendo do que sofreram os que lutaram pela independência de Angola, seria um insulto que deixássemos que uma postura colonial ao contrário passasse a marcar as relações entre os dois países. Se não quero ser colono, não quero seguramente ser colonizado. Se a parceria estratégica com Angola passa pelo silenciamento, em Portugal, das vozes incómodas para o presidente José Eduardo dos Santos, acho excelente que ela seja imediatamente enterrada. Em 1974 livrámo-nos de Marcelo Caetano. Dispensamos receber ordens do seu congénere angolano.
 
Bem sei que o meu governo, que quase todos os partidos do meu país, que os empresários e que até muitos intelectuais e jornalistas portugueses se comportam de uma forma indigna, rastejando aos pés de José Eduardo dos Santos por uns trocados. Por umas empreitadas, umas parcerias, umas encomendas, umas compras, umas vendas, uns investimentos, uns financiamentos. Como não tenho nem quero ter negócios em Angola, para mim tudo está como estava. Com ou sem parceria estratégica, José Eduardo dos Santos é um dos mais refinados ladrões que África e o Mundo conhecem. E só terei orgulho em ser português enquanto puder escrever esta evidência livremente. E enquanto puder continuar a ser solidário com os que, em Angola, lutam pela democracia, pela justiça social e pela decência ética, arriscando a sua liberdade e a sua vida. Porque a parceria estratégica que me interessa é, antes de tudo, entre povos. Os negócios, sendo importantes, vêm depois. E sei que virá o dia em que Angola será uma democracia madura. E virá o dia que Portugal terá resgatado a sua dignidade. Quando as duas coisas acontecerem, os dois Estados terão as parcerias que os seus povos merecem.
 
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