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Friday, October 18, 2013

EDWARD SNOWDEN NEGA TER REVELADO DOCUMENTOS SECRETOS À RÚSSIA

 


Opera Mundi, São Paulo
 
Em entrevista, ex-técnico da NSA disse não possuir cópia dos arquivos, que foram dados a jornalistas em Hong Kong
 
O ex-técnico da NSA (Agência de Segurança norte-americana) Edward Snowden, procurado pelo governo dos EUA pelo vazamento de documentos que denunciam o esquema de espionagem do país, afirmou, em entrevista publicada pelo New York Times nesta sexta-feira (18/10), que não revelou nenhum desses arquivos à Rússia ou à China.
 
 “Existe zero por cento de chance que os russos ou os chineses tenham obtido qualquer documento”, afirmou Snowden. Ele disse ter deixado todos os papéis com uma equipe de jornalistas com quem se encontrou em Hong Kong (incluindo Gleen Greenwald, então no jornal britânico The Guardian) antes de voar para Moscou. Por isso, disse, não manteve nenhuma cópia consigo, pois isso não “serviria ao interesse público”.
 
Na entrevista, que foi realizada durante vários dias via internet, por meio de comunicação criptografada, Snowden confessou estar relutante em revelar tal informação por medo de expor os jornalistas de Hong Kong a investigações.
 
O norte-americano também afirmou que, enquanto trabalhava para a NSA, foi responsável por investigar operações secretas da China, além de dar um curso sobre inteligência cibernética. Por conta disso, o ex-técnico da NSA disse ter certeza de que os documentos não caíram nas mãos de espiões chineses.
 
O governo dos EUA está processando o ex-técnico da NSA, acusando-o de violação do “Espionage Act”. Snowden não se mostra preocupado em relação a isso e se afirma como um delator que está agindo em nome do interesse nacional. Para o ex-técnico, suas denúncias estão ajudando o serviço de segurança norte-americano, pois levantaram um debate público necessário a respeito da abrangência do sistema de inteligência do país.

“A permanência secreta desses programas representa um perigo muito maior do que sua interrupção”, afirmou Snowden, que também criticou a falta de legitimidade de atividades governamentais que ocorrem “às escuras”.
 
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ESPIONAGEM CANADENSE NO BRASIL: AS RAZÕES DE UMA DERIVA

 


Pierre Beaudet, Ottawa – Opera Mundi
 
Para o governo de Stephen Harper, práticas se encaixam bem com sua visão do mundo
 
O mundo sabe há algum tempo que os serviços de segurança canadenses estão envolvidos em espionagem industrial contra o Brasil. É sem dúvida o caso de outros países. Para o governo Harper, essas práticas se encaixam bem com sua visão do mundo.
 
Uma política externa marcada pela "guerra sem fim"
 
Stephen Harper foi eleito em 2007, previamente à sua denúncia feroz da "neutralidade" do governo canadense durante a invasão do Iraque pelos EUA (que o Canadá, como a grande maioria dos Estados membros da ONU, recusou-se a endossar). Harper não queria apenas que o Canadá participasse dessa ação ilegal, mas também que reorientasse a sua política externa com base nos objetivos dos neoconservadores norte-americanos, incluindo iniciar guerras "preventivas" e a enfrentar não só a ameaça terrorista como também a emergência de novas potências.
 
Em 2011, após a eleição que lhe permitiu formar um governo majoritário, Harper definiu suas prioridades para o setor de segurança militar através de aumentos substanciais nos orçamentos (enquanto todos os outros ministérios e departamentos do governo federal foram atingidos por grandes reduções). Além disso, as Forças Armadas do Canadá, que tradicionalmente participaram de missões das forças de paz da ONU, foram redirecionados para uma missão de combate na região sul do Afeganistão, na linha de frente, por assim dizer. Ao mesmo tempo, o Canadá é exibido na ONU como o principal aliado de Israel, recusando-se a endossar as condenações regulares contra a expansão dos assentamentos e as graves violações dos direitos humanos nos territórios palestinos ocupados. Tudo isso levou, em 2010, à humilhante derrota da candidatura do Canadá para o Conselho de Segurança, quando tradicionalmente o país sempre foi eleito para o órgão de decisão da ONU. Desde então, o governo canadense tem apoiado as ações militares da OTAN, como foi o caso na Líbia, em 2012. Ele intensifica sanções contra o Irã e denuncia todos aqueles que querem negociar com o regime iraniano, que qualifica de “maléfico”.

A América Latina não é exceção a essa virada neoconservadora canadense. Ottawa foi um dos primeiros (e raros) Estados a apoiar o golpe de Estado em Honduras, bem como a derrubada do presidente do Paraguai. O "inimigo” declarado de Harper é a Venezuela, que ele denuncia nos mesmos termos que a direita republicana nos Estados Unidos. Na verdade, a política externa do Canadá no momento é mais parecida com a do Tea Party do que com a do governo Obama.
 
O reino da petro-energia
 
O realinhamento do Canadá sob Harper não é apenas no domínio da política externa. Com efeito, a nova prioridade é concentrar intervenções para fortalecer o setor petroleiro no oeste do país (em Alberta, notadamente) e, de maneira geral, nos recursos naturais. Esta "reprimarização" da economia ocorre em detrimento de setores industriais, tradicionalmente localizados em Ontário e Quebec. Atualmente, o grande desafio para o governo federal é a construção de uma poderosa rede de dutos para o sul (mercado dos EUA), para o oeste (mercado asiático) e para o leste (Atlântico) para transportar o petróleo da Província de Alberta, descrito por ambientalistas como o "mais sujo" do mundo (sozinhos, os campos de petróleo betuminoso são responsáveis ​​por um grande percentual de emissões de gases de efeito estufa). Atualmente, o governo Harper é apoiado por menos de 30% dos canadenses (40% dos 60% que votam), principalmente nas províncias ocidentais. No Quebec, o Partido Conservador tem apenas cinco deputados, em face de cerca de 60 social-democratas eleitos pelo NDP. O país está fraturado geograficamente e politicamente.
 
Segurança acima de tudo
 
Last but not least, o governo está fortalecendo o setor de segurança, incluindo a Royal Canadian Mounted Police (Polícia Federal), o Serviço Canadense de Inteligência de Segurança (SCRS), e o Centro de Segurança das Telecomunicações do (CSEC), identificado como a agência responsável por interceptar mensagens provenientes de ministérios brasileiros. Estas agências trabalham em estreita colaboração com várias agências de segurança dos EUA, incluindo o grupo TAO, o nome de código de uma unidade de elite da espionagem americana. Essas práticas ilegítimas se somam às políticas discriminatórias e contrárias à Carta dos Direitos, como a detenção "administrativa" (sem processo, nem acusação), e a imposição a indivíduos “suspeitos” de ligação com grupos “subversivos” de “certificados de segurança" que obrigam severas restrições. O governo sustenta ativamente uma campanha de medo, apresentando o Canadá como “alvo” de "terroristas" formados, na maioria, por grupos árabes e muçulmanos. Qualquer organização crítica das políticas de Israel é ameaçada de ser colocada em uma lista de "grupos terroristas", realizada pelo governo canadense, com graves consequências para a liberdade de expressão.
 
Futuro incerto
 
Recentemente, na Cúpula da APEC, o primeiro-ministro Harper retomou seus temas preferidos: livre comércio sem restrições, promoção dos "valores" da "democracia" na interpretação dos EUA do termo, denúncia dos “Estados terroristas" etc. Nas entrelinhas, também defendeu uma política para impor uma nova Pax Americana na região da Ásia-Pacífico. O sonho é um pouco fútil e perigoso, mas pode levar à políticas desestabilizadoras. Apesar das relações comerciais significativas entre Canadá e China, o governo Harper não hesitará em intervir nos assuntos internos desse país, supostamente para defender os direitos humanos. Ele é bem mais hostil ao crescimento das empresas chinesas no Canadá, inclusive no setor energético, apesar de querer vender mais petróleo para a China! Em face das próximas eleições federais previstas para 2015, a opinião pública canadense está inquieta, tanto com as questões de política interna quanto de política externa. Resta saber o que poderão fazer os partidos de centro e centro-esquerda que estão atualmente na oposição, mas que parecem receber o apoio da maioria da população. Questiona-se notadamente o fato que o Brasil foi negligenciado pelo governo Harper, que em sua miopia e dogmatismo o vê mais como um adversário do que como um parceiro.

Pierre Beaudet é professor da Escola de Desenvolvimento Internacional e Estudos Globais da Universidade de Ottawa
 
Tradução: José Renato Vieira Martins
 
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Governo de Macau avança com proposta de lei do erro médico após anos de discussão

 


Macau, China, 18 out (Lusa) - O Governo de Macau vai submeter em breve ao hemiciclo uma proposta de lei do erro médico, após mais de dez anos de discussão e obtido o aval do Conselho Executivo, foi hoje anunciado.
 
O porta-voz do Conselho Executivo, Leong Heng Teng, disse, em conferência de imprensa, que o diploma está pronto para ser apreciado pela Assembleia Legislativa, tendo como objetivo o "tratamento imparcial, justo e eficiente de litígios decorrentes de erro médico para a salvaguarda dos direitos e interesses legítimos dos prestadores de cuidados de saúde e dos utentes".
 
A proposta de lei define erro médico como o "facto emergente de atos praticados pelos prestadores de cuidados de saúde no exercício das atividades com violação culposa de diplomas legais, instruções, princípios deontológicos, conhecimentos técnicos, profissionais ou regras gerais, que causem danos para a saúde dos utentes, o que é imputável às instituições ou pessoal médico".
 
O regime jurídico de tratamento de litígios decorrentes de erro médico não prevê sanções para o pessoal médico ou as respetivas instituições envolvidas, mas a aplicação do Código Civil ou Penal, consoante as situações.
 
O diploma estabelece regras nomeadamente para o registo, gestão e conservação do processo clínico, em que são registados os tratamentos dos utentes e que terão de ser conservados por um mínimo de dez anos a partir do registo das últimas informações, determinando que os "utentes possam aceder e requerer" o mesmo.
 
Multas estão previstas para quem violar as regras neste âmbito, bem como sanções penais para "atos de falsificação e danificação do processo clínico", disse Leong Heng Teng.
 
Os prestadores de cuidados de saúde que tenham conhecimento da ocorrência de erro médico ou suspeitem da mesma estão obrigados a notificar em 24 horas os Serviços de Saúde, que informarão o utente da situação se houver fortes indícios de erro médico para que se possa defender.
 
O diploma propõe a criação de uma Comissão de Perícia do Erro Médico, formada por sete profissionais, com o poder de "investigação e perícia técnica independente para a verificação do erro médico" a pedido dos utentes.
 
Esta comissão terá de elaborar um "relatório pericial que deve indicar a verificação ou não do erro médico", mas "não mencionará sanções", salientou Leong Heng Teng.
 
As conclusões da investigação servem de referência para a resolução dos litígios decorrentes do erro médico, sem prejuízo do recurso a outros meios.
 
Com o relatório desta Comissão, os utentes poderão recorrer ao Centro de Mediação de Litígios Médicos, previsto também pelo diploma para que seja definida uma indemnização, mas, caso a mediação não tenha sucesso, as partes poderão recorrer a outros meios, nomeadamente a ação judicial, concluiu o porta-voz do Conselho Executivo.
 
PNE // MLL - Lusa
 

Missão empresarial da AEP à Indonésia termina com "boas perspetivas" de negócio

 


Jacarta, 18 de out (Lusa) - A primeira missão empresarial da Associação Empresarial de Portugal (AEP) à Indonésia, de cinco dias, terminou hoje com "boas perspetivas" de negócio para as empresas portuguesas, destacou a responsável pela área internacional da associação.
 
"De uma forma genérica, todas as empresas tiveram bons contactos de negócios. Há boas perspetivas", disse à Lusa Maria Helena Ramos, que quer organizar outra visita ao país em 2014, porque "há mercado para vários setores".
 
Apesar de a Indonésia ser "um país de marcas", a representante da AEP destacou que os empresários indonésios estão "muito recetivos a contactos e a novos produtos", existindo várias oportunidades, sobretudo na construção.
 
Ramiro Tavares, diretor comercial da Amorim Cork Composites, realçou que a Indonésia é um mercado onde é imperativo estar, porque "tem um crescimento acima dos 5%" e uma "classe média a crescer anualmente acima de seis milhões de pessoas, o que não é normal hoje no mundo".
 
A empresa, que tem 552 trabalhadores e está presente em 84 países, termina a visita com "resultados promissores, mas exploratórios", sobretudo na construção, sendo agora necessário "ajustar alguns produtos às necessidades do mercado", segundo o representante.
 
Pedro Luís, diretor-geral da Alexandrino Pais Leitão, empresa de mármore e granito, que exporta para o centro da Europa, Médio Oriente, América do Norte, Angola e Moçambique, encontrou um dos mercados "mais maduros" na sua área de atuação, "se calhar mais do que o mercado da América do Norte a nível de produto", e conhecedor da oferta portuguesa.
 
O responsável da empresa de Pero Pinheiro, com um volume de negócios entre seis a sete milhões de euros, notou que os empresários pareceram interessados no seu produto, mas frisou que os indonésios são conhecidos como "os brasileiros da Ásia", ou seja, embora à partida mostrem abertura, muitas vezes esse interesse inicial não tem seguimento.
 
Daniel Pinho, gestor de área da Vicaima, uma empresa de Vale de Cambra que produz cerca de 1,5 milhões de portas por ano e que está presente em 27 países, deixa a Indonésia "muito otimista" e "espantado" com o mercado, sobretudo na área da hotelaria.
 
"Estamos bem referenciados. Tive oportunidade de falar com cadeias hoteleiras, que é a nossa especialidade, e penso que correu bem", referiu Daniel Pinho, apesar de reconhecer que é necessário instruir os indonésios quanto ao gosto pelo 'design' e à aposta na qualidade em detrimento do preço, bem como uma adequação do produto ao mercado.
 
A Luís Amorim Unipessoal, uma empresa sediada na Senhora da Hora que conta com 15 trabalhadores e um volume de negócios de cerca de dois milhões de euros, veio à Indonésia à procura de negócios na instalação de energia e encontrou um "nicho interessante" na área dos painéis solares fotovoltaicos, segundo o proprietário.
 
Após cinco dias de contactos, Luís Amorim concluiu que os empresários indonésios querem sobretudo investidores e que a economia "depende muito das 'commodities'", como o óleo de palma, sendo por isso encarada como "um gigante com pés de barro", para além de apresentar problemas estruturais, como a burocracia e a corrupção.
 
A missão, na qual participam também a Cifial e a Topázio - esta última viaja mais tarde -, foi organizada em parceria com a Câmara de Comércio e Indústria Portugal-Indonésia e a Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP) e teve apoios do Quadro de Referência Estratégico Nacional (QREN).
 
ANYN // VC - Lusa
 

QUEM SÃO OS TERRORISTAS?

 


Renan Cavalcante Eugenio, São Paulo – Opera Mundi
 
Independentemente das características, atos de governos nunca são taxados de terroristas
 
Desde os ataques às torres gêmeas e outros locais dentro dos Estados Unidos, em 2001, a palavra terrorista se tornou frequente na mídia. De lá para cá, a paranoia coletiva de novos atentados fez com que o termo surgisse em veículos de imprensa em toda tragédia não natural. O problema é que muitas das vezes o termo acaba sendo usado de forma incorreta. Mas quem é terrorista? E o que essa palavra realmente significa?

De acordo com o segundo verbete do dicionário Houaiss define terrorismo da seguinte forma:  “Emprego sistemático da violência para fins políticos, especialmente a prática de atentados e destruições por grupos cujo objetivo é a desorganização da sociedade existente e a tomada do poder; terror”.

Nem todos veem as coisas da mesma maneira que o Houaiss. O linguista, filósofo e ativista político Noam Chomsky vê a utilização do terror como forma política e, também, como uma arma do imperialismo. Para ele, os Estados Unidos são um estado líder em terrorismo, tendo cometido atentados em diversas partes do mundo para manter seus interesses políticos e econômicos. Ele cita os ataques ocorrido em 1998 às instalações farmacêuticas da empresa Al-Shifa, no Sudão, como sendo um dos exemplos de terrorismo de estado.

Chosmky também fala sobre o uso propagandístico do termo. Os estados o utilizam para taxar seus inimigos. Os nazistas chamavam os partisans, membros da resistência, de terroristas e empregavam táticas de contraterrorismo para acabar com suas atividades em toda a Europa. Hoje diversos grupos ganham tal denominação apenas por se oporem a alguns governos.

Na mídia a utilização do termo também é envolto em questões filosóficas e políticas. O editor de mundo da Folha de S. Paulo, Fábio Zanini, explica que o uso consensual do termo nos jornais é: o ataque de um ente não estatal contra uma população civil por motivo político. Mas ele ressalta que muitas injustiças são cometidas por isso. “Se um exército fizer a mesma coisa, não é terrorismo”, afirma. E exemplifica, “quando os palestinos atacam Israel, é terrorismo. Quando Israel ataca crianças na faixa de gaza, não é terrorismo”.

Com várias definições para a mesma palavra, o certo é que o terrorismo, independente da motivação, sempre atinge a vida de milhares pessoas inocentes.
 
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NOVO JOGO, NOVA OBSESSÃO, NOVO INIMIGO – AGORA É A CHINA

 

John Pilger
 
Países são "peças num jogo de xadrez sobre o qual está a ser efectuado um grande jogo para a dominação do mundo", escreveu Lord Curzon, vice-rei da Índia, em 1898. Nada mudou. O massacre no centro comercial em Nairobi foi uma fachada sangrenta por trás da qual uma invasão em grande escala da África e uma guerra na Ásia constituem o grande jogo.

Os assassinos do centro comercial al-Shabaab vieram da Somália. Se algum país é uma metáfora, este é a Somália. Partilhando uma língua e religião comuns, os somalis foram divididos entre os britânicos, franceses, italianos e etíopes. Dezenas de milhares de pessoas foram passadas de uma potência para outra. "Quando se faz com que se odeiem entre si", escreveu um responsável colonial britânico, "a boa governação está assegurada".

Hoje, a Somália é um parque temático (theme park) de divisões artificiais brutais, um país há muito empobrecido pelos programas de "ajustamento estrutural" do Banco Mundial e FMI e saturado de armas modernas, nomeadamente aquela da preferência pessoal do presidente Obama: o drone. O único governo estável somali, o dos Tribunais Islâmicos, era "bem aceite pelo povo nas áreas que controlava", relata o US Congressional Research Service, "[mas] recebia cobertura negativa da imprensa, especialmente no Ocidente". Obama esmagou-o e, em Janeiro, Hillary Clinton, então secretária de Estado, apresentou o seu homem ao mundo. "A Somália permanecerá grata pelo apoio resoluto do governo dos Estados Unidos", rejubilou-se o presidente Hassan Mohamud, "obrigado América".

A atrocidade do centro comercial foi uma resposta a isto – assim como o ataque às Torres Gémeas e as bombas de Londres foram reacções explícitas à invasão e injustiça
[NR]. Outrora de pouca importância, agora o jihadismo marcha em uníssono com o retorno do imperialismo descarado.

Desde que em 2011 a NATO reduziu a Líbia moderna a um estado hobbesiano, os últimos obstáculos para [o avanço sobre] a África caíram. "Disputas por energia, minerais e terra fértil provavelmente ocorrerão com intensidade crescente", relatam planeadores do Ministério da Defesa. Eles prevêem "números elevados de baixas civis", portanto "percepções de legitimidade moral serão importantes para o êxito". Sensível ao problema de RP de invadir um continente, o mamute das armas, a BAE Systems, juntamente com o Barclay Capital e a BP advertem que "o governo deveria definir sua missão internacional como administradores de risco em nome dos cidadãos britânicos". O cinismo é letal. Governos britânicos são reiteradamente advertidos, nada menos que pelo comité de inteligência e segurança parlamentar, que aventuras estrangeiras chamam por retaliações em casa.
 
Com o mínimo de interesse dos media, o US African Command (Africom) instalou tropas em 35 países africanos, estabelecendo uma rede familiar de pedintes autoritários ansiosos por subornos e armamentos. Em jogo de guerra, uma doutrina "soldado por soldado" embebe oficiais dos EUA em todos os níveis de comando, desde o general até o primeiro-sargento. Os britânicos fizeram o mesmo na Índia. É como se a orgulhosa história de libertação da África, desde Patrice Lumumba até Nelson Mandela, fosse remetida ao esquecimento pelos mestres de uma nova elite colonial negra cuja "missão histórica", advertiu Frantz Fanon meio século atrás, é a subjugação do seu próprio povo para a causa de "um capitalismo desenfreado embora camuflado". A referência também é adequada ao Filho da África na Casa Branca.

Para Obama, há uma causa mais premente – a China. A África é a história de êxito da China. Onde os americanos trazem drones, os chineses constroem estradas, pontes e barragens. O que os chineses querem é recursos, especialmente combustíveis fósseis. O bombardeamento da Líbia pela NATO expulsou 30 mil trabalhadores chineses da indústria petrolífera. Mais do que o jihadismo ou o Irão, a China é agora a obsessão de Washington na África e para além dela. Isto é uma "política" como o "eixo para a Ásia", cuja ameaça de guerra mundial pode ser tão grande como qualquer outra na era moderna.

A reunião desta semana em Tóquio do secretário de Estado John Kerry e o secretário da Defesa Chuck Hagel com os seus homólogos japoneses acelerou a perspectiva de guerra com o novo rival imperial. Sessenta por cento das forças navais dos EUA estão para serem baseadas na Ásia em 2020, tendo a China como objectivo. O Japão está a rearmar-se rapidamente sob o governo de direita do primeiro-ministro Shinzo Abe, que chegou ao poder em Dezembro com uma promessa de construir uma "nova e forte força militar" e contornar a "constituição pacífica". Um sistema de mísseis anti-balísticos dos EUA e Japão, próximo de Quioto, é dirigido à China. Utilizando drones Global Hawk de longo alcance, os EUA aumentaram drasticamente suas provocações nos mares a Leste e ao Sul da China, onde Japão e China disputam a propriedade das ilhas Senkaku/Diaoyu. Aviões avançados de descolagem vertical agora estão instalados no Japão; o seu propósito é a guerra relâmpago (blitzkrieg).

Na ilha de Guam, no Pacífico, a partir da qual os B-52s atacavam o Vietname, a maior acumulação militar desde as guerras da Indochina inclui 9.000 Fuzileiros Navais dos EUA. Na Austrália esta semana, uma feira de armas e um festival (jamboree) militar que divertiu grande parte de Sidney, está em consonância com uma campanha de propaganda do governo para justificar uma acumulação militar sem precedentes desde Perth até Darwin, destinada à China. A vasta base estado-unidense em Pine Gap, próxima de Alice Springs, é, como revelou Edward Snowden, um centro de espionagem dos EUA na região e para além dela; e também crítico para os assassinatos de Obama à escala mundial através de drones.

"Temos de informar os britânicos para mantê-los do nosso lado", disse certa vez um secretário de Estado assistente dos EUA, McGeorge Bundy, [ao passo que] "vocês na Austrália estão connosco, aconteça o que acontecer". Forças australianas desde há muito desempenham um papel mercenário para Washington. Contudo, há uma dificuldade. A China é a maior parceira comercial da Austrália e em grande parte foi graças a ela que a Austrália escapou à recessão de 2008. Sem a China, não haveria boom de minérios: nenhum rendimento mineiro de mais de mil milhões de dólares por semana.

Os perigos que isto apresenta raramente são debatidos em público na Austrália, onde o patrão do primeiro-ministro Tony Abbott, Rupert Murdoch, controla 70 por cento da imprensa. Ocasionalmente, manifesta-se ansiedade sobre a "opção" que os EUA querem que a Austrália faça. Um relatório do Australian Strategic Policy Institute adverte que quaisquer planos dos EUA para atacar a China envolveriam "cegar" a vigilância chinesa, seus sistemas de inteligência e comando. Isto "consequentemente aumentaria as possibilidade de antecipação nuclear chinesa... e uma série de erros de cálculo de ambos os lados se Pequim perceber ataques convencionais à sua terra natal como uma tentativa de desarmar sua capacidade nuclear".

No seu discurso ao país do mês passado, Obama disse: "O que torna a América diferente, o que nos torna excepcionais, é que nos dedicamos a actuar".
 
[NR] É altamente contestável que o ataque do 11/Set tenha sido uma reacção à "invasão e injustiça". Este ataque pode ser comparado com o incêndio do Reichstag (ateado por ordem de Göring em 1933 a fim de culpar os comunistas e justificar as medidas nazis de excepção que se seguiram). Sobre o 11/Set ver por exemplo Another Nineteen: Investigating Legitimate 9/11 Suspects , de Kevin Robert Ryan, 2013, Microbloom, 418p., ISBN 978-1489507839.

O original encontra-se em
johnpilger.com/articles/old-game-new-obsession-new-enemy-now-its-china

Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/.
 

NÃO HÁ MACHETE QUE CORTE A RAIZ À INCOMPETÊNCIA

 

We Have Kaos in the Garden
 
Rui Machete escusou-se hoje a prestar mais declarações sobre as relações com Angola, mas admitiu "algum grau de preocupação". "Peço desculpa, mas falamos sobre o que vocês quiserem, sobre o México, como é que correu esta iniciativa. Sobre isso [a relação entre Portugal e Angola], o Governo fez um comunicado, que traduz aquilo que pensamos. Não faço mais declarações".

He, he, he, incompetente com um armário carregadinho de esqueletos e com tantos tectos de vidro a pergunta é quanto tempo se vai aguentar, mesmo sendo titular da pasta do governo em que normalmente os ministros conseguem ter maior popularidade. Pior não podia ser e até uma casa de jogo online já colocou uma aposta com uma data-limite: 1 de Novembro. O mais provável, segundo esta casa de apostas online, é que Rui Machete deixe o cargo, o que faz com que a aposta de um euro valha 1,25 euros em caso de vitória, enquanto um euro apostado na continuação do ministro possa valer 3,50 euros. Ao que chegámos.
 
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EUA: COM GOVERNO “REABERTO”, OBAMA PEDE FIM DE POLÍTICA DE ALTO RISCO

 

Deutsche Welle
 
Impasse orçamentário levou EUA à beira do abismo, custou 24 bilhões de dólares e ainda pode ter sequelas. Acordos que encerraram impassse se esgotam no início de 2014, e não se descarta uma nova crise.
 
Discursando em Washington nesta quinta-feira (17/10), o presidente Barack Obama instou os políticos americanos, em pé de guerra no Congresso, a se unirem e aprovarem um orçamento de longo prazo. Ele pediu que abandonem a "política de alto risco", que, em suas palavras, minou a confiança do povo e ameaça a economia.
 
Após a aprovação no Senado do novo teto da dívida para o país, na véspera, John Boehner, porta-voz dos republicanos na Câmara dos Representantes, mostrou-se bom perdedor, ao declarar: "Lutamos uma boa batalha, mas não a vencemos."
 
O líder da maioria democrata no Senado, Harry Reid, manifestou-se de forma mais solene e apresentou o consenso como uma vitória da democracia. "Hoje, vimos como o Congresso chegou a um acordo histórico, suprapartidário, para tornar o governo novamente operante e evitar a insolvência desta nação."
 
Segundo Marc Goldwein, economista da organização independente Comitê para um Orçamento Estatal Responsável, "não há vencedores, só perdedores" nessa confrontação. "Ainda assim, por sorte encontramos um meio de colocar nosso governo de novo em ação. Isso certamente fará bem à nossa economia."
 
Prazo até fevereiro
 
O consenso no Congresso prevê a elevação do limite de endividamento, mantendo os EUA solventes pelo menos até 7 de fevereiro de 2014. Será aprovado um orçamento de transição, válido até 15 de janeiro. Assim, a administração paralisada quase totalmente há mais de duas semanas pôde, nesta quinta-feira, começar a retomar suas atividades.
 
Além disso, uma comissão suprapartidária ficará encarregada de, até meados de dezembro, apresentar propostas para a redução da dívida pública. Segundo Goldwein, mesmo depois do acordo no Congresso, vários problemas de curto e longo prazo permanecem sem solução.
 
"Temos uma série de programas de saúde e de aposentadoria cujo volume cresce mais rápido do que a receita fiscal consegue compensar. Ou reduzimos o volume dos programas, ou recolhemos mais impostos –ou uma combinação de ambos", afirma.
 
Crise dispensável
 
Mesmo tratando-se apenas de uma solução provisória, o consenso proporcionou grande alívio nos Estados Unidos. Na Bolsa de Nova York houve aplausos de pé, e o "showdown do shutdown" do governo foi tema por toda parte.
 
"Agora, enfim, vou poder novamente ocupar os meus quartos", alegrou-se um hoteleiro de Washington, cuja clientela é formada, sobretudo, por lobistas e visitantes do governo, os quais se ausentaram totalmente da capital nas últimas duas semanas.
 
No entanto, a coisa não precisava ter chegado tão longe, de modo algum, criticavam observadores políticos na noite de quarta-feira. Michael Werz, do think-tank Center for American Progress, diz que as semanas de suspense em torno da eventual insolvência do país abalaram fortemente a confiança na economia americana e no dólar como divisa internacional de reserva.
 
"Quando uma coisa dessas acontece uma vez, ainda se pode desculpar. Mas fomos colocados nessa situação pelos linhas-duras republicanos pela segunda vez, em 24 meses", comenta Werz. "Pouco a pouco isso vira um hábito e, naturalmente, também abala a confiança nos Estados Unidos como potência política e econômica."
 
Rixa de custos bilionários
 
Em seu discurso em Washington, o chefe de Estado americano confirmou que o "espetáculo" do impasse orçamentário prejudicou a credibilidade do país em todo o mundo. No entanto, o dano não é apenas psicológico: economistas calculam que as duas semanas de paralisação administrativa do Estado custaram concretamente aos cofres públicos cerca de 24 bilhões de dólares.
 
Cabe esclarecer que danos financeiros o fiasco ainda acarretará, até porque o acordo alcançado não é duradouro. A próxima crise orçamentária poderá estourar assim que o prazo da medida provisória se esgotar, no início do próximo ano.
 
"Quem acompanhou o debate no Senado, viu que todos ficaram assustados com a proximidade a que estivemos desse abismo. O governo dos EUA ouviu, tanto dos parceiros e aliados quanto de seus adversários políticos, que essa era uma forma irresponsável de governar o país. E acho que a mensagem chegou", diz Werz.
 
Por outro lado, ainda há numerosas incertezas políticas. O voto a favor da elevação do limite de endividamento, sem cortes na reforma da saúde, foi uma dura derrota para os republicanos no Congresso – e ainda precisa ser digerida.
 
"Obamacare" na mira de conservadores
 
O movimento Tea Party era quem mais exigia alterações decisivas na reforma da saúde impulsionada por Obama. Os conservadores populistas pretendiam se aproveitar da disputa em torno do orçamento e da dívida, para comprometer seriamente o objeto de prestígio do democrata.
 
Segundo se comentou em Washington, um núcleo mais radical do Tea Party estava até disposto a deixar o barco afundar na quarta-feira, na luta incondicional contra o assim chamado "Obamacare". O deputado texano ultraconservador Ted Cruz manifestou-se decepcionado com a aprovação no Congresso: mais uma vez, afirmou, a Washington bem estabelecida se impôs.
 
Muitos acham, porém, que nas próximas semanas os republicanos terão motivos suficientes para se ocupar consigo mesmos. "No espaço de umas poucas semanas, o porta-voz conservador deles, Boehner, foi várias vezes exposto e debilitado politicamente por um grupo pequeno, extremo e conservador em seu partido", opina Werz. "Agora será interessante observar como as duas facções – ou seja, os republicanos conservadores e os moderados – vão entrar num entendimento dentro do 'Grand Old Party'. "
 
Autoria: Antje Passenheim (av) – Edição: Rafael Plaisant
 

Tuesday, October 15, 2013

Angola: FOME DE MILHÕES ENCHE A BARRIGA DE UNS POUCOS COM MILHÕES DE DÓLARES

 

Folha 8 – edição 12 outubro 2013
 
A situação de fome no mundo preocupa, pelo menos em tese, muito boa gente. Represen­tantes de 175 países chegaram à conclu­são endémica de que existem pelo menos 842 milhões de pessoas afectadas pela desnutrição, sendo os casos de Angola e Guiné­-Bissau preocupantes.
 
Existem, todavia, alguns bons exem­plos entre os países que se entendem em português. As políticas e estra­tégias de combate à fome em São Tomé e Príncipe e Cabo Verde são casos de sucesso, segundo os espe­cialistas, a levar em conta, pesem as dificuldades que enfrentam, nomea­damente a falta de água no caso cabo­-verdiano.
 
O embaixador de Cabo Verde na Agência das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), Manuel Amante da Rosa, afirma pe­remptoriamente que falar de fome em Cabo Verde é um “exagero”. Explica que “existe fome, mas não aquela situação dramática que, tan­tas e tantas vezes, se encontra nou­tros países”.
 
O diplomata cabo-verdiano expli­ca que, por exemplo, o Governo do seu país tem dedicado esforços para garantir o desenvolvimento rural, mostrando-se optimista quanto às boas colheitas que, ano após ano, o país vai conseguindo.
 
Recentemente mais de 40 minis­tros da Agricultura reuniram-se, na sede da FAO, no âmbito do Comité Mundial de Segurança Alimentar, para analisar este drama. Parecendo pouco preocupados com a questão, a Guiné-Bissau esteve ausente e An­gola e Moçambique marcaram pre­sença embora sem figuras de alto nível.
 
De acordo com o relatório sobre a fome no mundo publicado na última semana pela FAO, Angola caminha para o cumprimento das metas de Desenvolvimento do Milénio no que concerne à redução da fome para metade até 2015. Todavia, entre 2011 e 2013, quase cinco milhões de ango­lanos passaram ou passam fome, ou seja, quase 25% da população. Tal­vez por isso o Governo continue a investir no supérfluo e a esquecer o essencial. A situação no nosso país é particularmente drástica nas provín­cias do sul, onde a população sente os efeitos da seca que começou em 2011, embora tenha sido compen­sada com a realização este ano do Campeonato do Mundo de Hóquei em Patins.
 
Um dos representantes de Angola na FAO, Manuel Nascimento, não quis falar para a situação, mas sem­pre atribuiu a situação de calami­dade aos efeitos naturais. Se tivesse auscultado os seus superiores po­deria, certamente, atribuir também responsabilidade mais imediatas à Oposição política interna e, mais distante, às políticas colonialistas de Portugal.
 
Na província do Cunene, uma das zonas mais atingidas pela seca, o governador provincial, António Di­dalelwa, afirma que se está a atra­vessar a estiagem mais dura dos últimos 25 anos na região, acrescen­tando que a seca está a afectar igual­mente mais de 2 milhões de cabeças de gado e que morrem em média 30 por dia.
 
Segundo António Didalelwa, a si­tuação tem sido minimizada graças às doações do Governo, de orga­nizações não-governamentais e de pessoas singulares. “Graças a isto, até aqui ainda não morreu ninguém, mas os bois estão a morrer”, afir­mou. Apesar de insuficiente, An­tónio Didalelewa agradece o apoio que têm recebido porque caso con­trário a gravidade da situação já te­ria feito vítimas mortais na provín­cia do Cunene.
 
Face a esta situação, o Governador conta que as populações têm aban­donado as zonas de residência para tentar escapar à dura estiagem: “É uma situação que nos preocupa bas­tante, porque as famílias, nomeada­mente as que criam gado, deixaram as suas casas”.
 
A situação está a tornar-se de tal modo alarmante que, por exemplo, a UNICEF já lançou um apelo de aju­da ao combate dos efeitos da seca em Angola. Segundo o vice-direc­tor da Cáritas, em Luanda, Eusébio Amarante, pelo menos dois milhões de pessoas estão a passar fome nas províncias sul.
 
“Eu acho que se o Governo se em­penhar pode fazer muito mais” rei­tera Eusébio Amarante, adiantando que as organizações humanitárias em Angola definiram como neces­sidades de primeira-mão “a fuba, o arroz, o óleo, o sabão e a água”. Estes são os bens essenciais “para ajudar as pessoas que estão a passar fome nas zonas rurais”, explica o respon­sável da Cáritas, num retrato que deveria envergonhar o regime.
 
Moçambique, por outro lado, encon­tra-se numa situação de estagnação na luta contra a fome. Se o quadro persistir não deve atingir a meta de reduzir a fome para metade até 2015. Segundo a FAO, actualmente 9 milhões de moçambicanos passam fome e isso representa quase 37% da população. Situação que piorou des­de o início da recolha dos dados, em 1990.
 
Quanto à Guiné-Bissau, a situação de fome no sul do país relatada pela FAO não pode ser verificada, uma vez que o país não enviou repre­sentantes para a reunião do Comité Mundial de Segurança Alimentar, em Roma que aconteceu no início deste mês.
 

Monday, October 14, 2013

NOAM CHOMSKY E O LABIRINTO AMERICANO

 


Ele sustenta: na Síria, Washington adotou lógica da Máfia, e perdeu; no Congresso, Obama é vítima da ultradireita, que age como os nazistas
 
Entrevista a Harrison Samphir, no Znet - Tradução: Vinícius Gomes - Imagem de HikingArtist – em Outras Palavras
 
Noam Chomsky é, aos 84 anos, um dos maiores intelectuais no mundo. Seu trabalho e suas realizações são bem conhecidos – ele é linguista norte-americano, professor emérito no Massachussets Institute of Technology (MIT) há mais de 60 anos, analista e ativista político constante, crítico original do capitalismo e da ordem mundial que tem como centro os Estados Unidos
 
Nessa entrevista, Chomsky debate a paralisação do governo norte-americano, por disputas incessantes no sistema político e, em especial, chantagem das forças de direita mais primitivas. Também aborda os sinais de perda de influência de Washington na Síria e da emegência, na América do Sul, de um conjunto de governos que afasta-se dos EUA, pela primeira vez em dois séculos.
 
Gostaria de começar com a paralisação recente do governo dos EUA. Por que ela é diferente dessa vez, se já aconteceu no passado?
 
Noam Chomsky: Paul Krugman fez há dias, no New York Times, um ótimo comentário a respeito. Lembra que o partido republicano é minoritário entre a opinião pública e controla a Câmara [House of Representatives, que junto do Senado representa o Legislativo nos EUA]. Está levando o governo à paralisação e talvez ao calote de suas dívidas. Conseguiu a maioria por conta de inúmeras artimanhas. Obteve uma minoria de votos, mas a maioria das cadeiras. Está se utilizando disso para impor uma agenda extremamente nociva para a sociedade. Foca particularmente a questão do sistema de saúde público.
 
Os EUA são o único, entre os países ricos e desenvolvidos, que não possue um sistema nacional de saúde pública. O sistema norte-americano é escandaloso. Gasta o dobro de recursos de países comparáveis, para obter um dos piores resultados. E a razão para isso é ser altamente privatizado e não-regulado, tornando-se extremamente ineficiente e caro. Aquilo que alguns chamam de “Obamacare” é uma tentativa de mudar esse sistema de forma suave – não tão radicalmente como seria desejável – para torná-lo um pouco melhor e mais acessível.
 
O Partido Republicano escolheu o sistema de saúde como alavanca para conquistar alguma força política. Quer destruir o Obamacare. Essa posição não é unânime entre os republicanos, é de uma ala do partido – chamada de “conservadora”, de fato, profundamente reacionária. Norman Orstein, um dos principais comentaristas conservadores, descreve o movimento, corretamente, como uma “insurgência radical”.
 
Então, há uma insurgência radical, que implica grande parte da base republicana, disposta a tudo – destruir o país, ou qualquer coisa, com o intuito de acabar com a Lei de Assistência Acessível (o Obamacare). É a única coisa a que foram capazes de se agarrar. Se falharem nisso, terão de dizer a sua base que mentiram para ela, ao longo dos últimos cinco anos. Por isso, estão dispostos a ir até onde for necessário. É um fato incomum – penso que único – na história dos sistemas parlamentaristas modernos. É muito perigoso para o país e para o mundo.
 
Como a paralisação poderia terminar?
 
Bem, a paralisação por si só é ruim – mas não devastadora. O perigo real surgirá nas próximas semanas. Há, nos Estados Unidos, uma legislação rotineira – aprovada todo ano – que permite ao governo tomar dinheiro emprestado. Do contrário, ele não funciona. Se o Congresso não autorizar a continuação da tomada de empréstimos, talvez o governo peça moratória. Isso nunca aconteceu e um calote do governo norte-americano não seria muito prejudicial apenas aos EUA. Ele provavelmente afundaria o país, de novo, numa profunda recessão – mas talvez também quebre o sistema financeiro internacional. É possível que encontrem maneiras para contornar a situação, mas o sistema financeiro mundial depende muito da credibilidade do Departamento do Tesouro dos EUA. A credibilidade dos títulos de dívida emitidos pelos EUA é vista como “tão boa quanto ouro”: esses papéis são a base das finanças internacionais. Se o governo não conseguir honrá-los, eles não possuirão mais valor, e o efeito no sistema financeiro internacional poderá ser muito severo. Mas para destruir uma lei de saúde limitada, a extrema direita republicana, os reacionários, estão dispostos a fazer isso.
 
No momento, os EUA estão divididos sobre como o tema será resolvido. O ponto principal a observar é a divisão no Partido Republicano. O establishment republicano, junto com Wall Street, os banqueiros, os executivos de corporações não querem isso – de maneira nenhuma. É parte da base que deseja, e tem sido muito difícil controlá-la. Há uma razão para terem um grande grupo de delirantes em sua base. Nos últimos 30 ou 40 anos, ambos os partidos que comandam a política institucional dos EUA inclinaram-se para a direita. Os democratas de hoje são, basicamente, aquilo que se costumava chamar, há tempos, de republicanos moderados. E os republicanos foram tanto para a direita que simplesmente não conseguem votos, na forma tradicional.
 
Tornaram-se um partido dedicado aos muito ricos e ao setor corporativo – e você simplesmente não consegue votos dessa maneira. Por isso, têm sido compelidos a mobilizar eleitores que sempre estiveram presentes no sistema político, mas eram marginais. Por exemplo, os extremistas religiosos. Os EUA são um dos expoentes no que se refere ao extremismo religioso no mundo. Mais ou menos metade da população acredita que o mundo foi criado há alguns milhares de anos; dois terços da população está aguardando a segunda vinda de Cristo. A direita também teve de recorrer aos nativistas. A cultura das armas, que está fora de controle, é incentivada pelos republicanos. Tenta-se convencer as pessoas de que devem se armar, para nos proteger. Nos proteger de quem? Das Nações Unidas? Do governo? Dos alienígenas?
 
Uma enorme parcela da sociedade é extremamente irracional e agora foi mobilizada politicamente pelo establishment republicano. Os líderes presumem que podem controlar este setor, mas a tarefa está se mostrando difícil. Foi possível perceber isso nas primárias republicanas para a presidência, em 2012. O candidato do establishment era Romney, um advogado e investidor em Wall Street – mas a base não o queria. Toda vez que a base surgia com um possível candidato, o establishment fazia de tudo para destruí-lo, recorrendo, por exemplo, a ataques maciços de propaganda. Foram muitos, um mais louco que o outro. O establishment republicano não os quer, tem medo deles, conseguiu nomear seu candidato. Mas agora está perdendo controle sobre a base.
 
Sinto dizer que isso tem algumas analogias históricas. É mais ou menos parecido com o que aconteceu na Alemanha, nos últimos anos da República de Weimar. Os industriais alemães queriam usar os nazistas, que eram um grupo relativamente pequeno, como um animal de combate contra o movimento trabalhista e a esquerda. Acharam que podiam controlá-los, mas descobriram que estavam errados. Não estou dizendo que o fenômeno vai se repetir aqui, é um cenário bem diferente, mas algo similar está ocorrendo. O establishment republicano, o bastião corporativo e financeiro dos ricos, está chegando em um ponto em que não consegue mais controlar a base que mobilizou.
 
Na política externa, as notícias sobre a Síria sumiram da mídia convencional, desde a aprovação do acordo para confiscar as armas químicas do arsenal de Assad. Você pode comentar esse silêncio?
 
Nos EUA, há pouco interesse sobre o que acontece fora das fronteiras. A sociedade é bem insular. A maioria das pessoas sabe bem pouco sobre o que acontece no mundo e não liga tanto para isso. Está preocupada com seus próprios problemas, não têm o conhecimento ou o compreensão sobre o mundo ou sobre História. Quando algo, no exterior, não é constantemente martelado pela mídia, esta maioria simplesmente não sabe nada a respeito.
 
A Síria vive uma situação muito ruim, atrocidades realmente terríveis, mas há lugares muito piores no mundo. As maiores atrocidades das últimas décadas têm ocorrido no Congo – na região oriental –, onde mais ou menos 5 milhões de pessoas foram mortas. Nós – os EUA – estamos envolvidos, indiretamente. O principal mineral em seu celular é o coltan, que vem daquela região. Corporações internacionais estão lá, explorando os ricos recursos naturais Muitas delas bancam milícias, que estão lutando umas contra as outras pelo controle dos recursos, ou de parte deles. O governo de Ruanda, que é um cliente dos EUA, está intervindo maciçamente, assim como Uganda. É praticamente uma guerra mundial na África. Bem, quantas pessoas sabem disso? Mal chega à mídia e as pessoas simplesmente não sabem nada a respeito.
 
Na Síria, o presidente Obama fez um discurso sobre o que chamou de sua “linha vermelha”: não se pode usar armas químicas; pode-se fazer de tudo, exceto utilizar armas químicas. Surgiram relatórios credíveis, afirmando que a Síria utilizou essas armas. Se é verdade, ainda está em aberto, mas muito provavelmente é. Nesse ponto, o que estava em jogo é o que se chama de credibilidade. A liderança política e os comentaristas de política externa indicavam, corretamente, que a credibilidade norte-americana estava em jogo. Algo precisava ser feito para mostrar que nossas ordens não podem ser violadas. Planejou-se um bombardeio, que provavelmente tornaria a situação ainda pior, mas manteria a credibilidade dos EUA.
 
O que é “credibilidade”? É uma noção bem familiar – basicamente, a noção principal para organizações como a Máfia. Suponha que o Poderoso Chefão decida que você terá que pagá-lo, para ter proteção. Ele tem de “bancar” essa afirmação. Não importa se precisa ou não do dinheiro. Se algum pequeno lojista, em algum lugar, decidir que não irá pagá-lo, o Poderoso Chefão não deixa a ousadia impune. Manda seus capangas espancá-lo sem piedade, ainda que o dinheiro não signifique nada para ele. É preciso estabelecer credibilidade: do contrário, o cumprimento de suas ordens tenderá a erodir. As relações exteriores funcionam quase da mesma maneira. Os EUA representam o Poderoso Chefão, quando dão essas ordens. Os outros que cumpram, ou sofram as consequências. Era isso que o bombardeio na Síria demonstraria.
 
Obama estava chegando a um ponto do qual, possivelmente, não seria capaz de escapar. Não havia quase apoio internacional nenhum – sequer da Inglaterra, algo incrível. A Casa Branca estava perdendo apoio internamente e foi compelida a colocar o tema em votação no Congresso. Parecia que seria derrotada, num terrível golpe para a presidência de Obama e sua autoridade. Para a sorte do presidente, os russos apareceram e o resgataram com a proposta de confiscar as armas químicas, que ele prontamente aceitou. Foi uma saída para a humilhação de encarar uma provável derrota.
 
Faço comentário adicional. Você perceberá que este é um ótimo momento para impor a Convenção sobre Proibição de Armas Químicas no Oriente Médio. A verdadeira convenção, não a versão que Obama apresentou em seu discurso, e que os comentaristas repetiram. Ele disse o básico, mas poderia ter feito melhor, assim como os comentaristas. A Convenção sobre Proibição de Armas Químicas exige que sejam banidas a produção, estocagem e uso delas – não apenas o uso. Por que omitir produção e estocagem? Razão: Israel produz e estoca armas químicas. Consequentemente, os EUA irão evitar que tal convenção seja imposta no Oriente Médio. É um assunto importante: na realidade, as armas químicas da Síria foram desenvolvidas para se contrapor às armas nucleares de Israel, o que também não foi mencionado.
 
Você afirmou recentemente que o poder norte-americano no mundo está em declínio. Para citar sua frase em Velhas e Novas Ordens Mundiais, de 1994, isso limitará a capacidade dos EUA para “suprimir o desenvolvimento independente” de nações estrangeiras? A Doutrina Monroe está completamente extinta?
 
Bem, isso não é uma previsão, isso já aconteceu. E aconteceu nas Américas, muito dramaticamente. O que a Doutrina Monroe dizia, de fato, é que os EUA deviam dominar o continente. No último século isso de fato foi verdade, mas está declinando – o que é muito significativo. A América do Sul praticamente se libertou, na última década. Isso é um evento de relevância histórica. A América do Sul simplesmente não segue mais as ordens dos EUA. Não restou uma única base militar norte-americana no continente. A América do Sul caminha por si só, nas relações exteriores. Ocorreu uma conferência regional, cerca de dois anos atrás, na Colômbia. Não se chegou a um consenso, nenhuma declaração oficial foi feita. Mas nos assuntos cruciais, Canadá e EUA isolaram-se totalmente. Os demais países americanos votaram num sentido e os dois foram contra – por isso, não houve consenso. Os dois temas eram admitir Cuba no sistema americano e caminhar na direção da descriminalização das drogas. Todos os países eram a favor; EUA e Canadá, não.
 
O mesmo se dá em outros tópicos. Lembre-se de que, algumas semanas atrás, vários países na Europa, incluindo França e Itália, negaram permissão para sobrevoo do avião presidencial do boliviano Evo Morales. Os países sul-americanos condenaram veementemente isso. A Organização dos Estados Americanos, que costumava ser controlada pelos EUA, redigiu uma condenação ácida, mas com um rodapé: os EUA e o Canadá recusaram-se a subscrever. Estão agora cada vez mais isolados e, mais cedo ou mais tarde, penso que os dois serão, simplesmente, excluídos do continente. É uma brusca mudança em relação ao que ocorria há pouco tempo.
 
A América Latina é o atual centro da reforma capitalista. Esse movimento poderá ganhar força no Ocidente?
 
Você está certo. A América Latina foi quem seguiu com maior obediência as políticas neoliberais instituídas pelos EUA, seus aliados e as instituições financeiras internacionais. Quase todos os países que se orientaram por aquelas regras, incluindo nações ocidentais, sofreram – mas a América Latina padeceu particularmente. Seus países viveram décadas perdidas, marcadas por inúmeras dificuldades.
 
Parte do levante da América Latina, particularmente nos últimos dez a quinze anos, é uma reação a isso. Reverteram muitas daquelas medidas e se moveram para outra direção. Em outra época, os EUA teriam deposto os governos ou, de uma maneira ou de outra, interrompido seu movimento. Agora, não podem fazer isso.
 
Recentemente, os EUA testemunharam o surgimento de seus primeiros refugiados climáticos – os esquimós Yup’ ik – na costa sul na ponta do Alaska. Isso coloca em mórbida perspectiva o impacto humano no meio ambiente. Qual é sua posição acerca dos impostos sobre emissões carbono e quão popular pode ser tal medida nos EUA ou em outro país?
 
Acho que é basicamente uma boa ideia. Medidas muito urgentes têm de ser tomadas, para frear a contínua destruição do meio ambiente. Um imposto sobre carbono é uma maneira de fazer isso. Se isso se tornasse uma proposta séria nos EUA, haveria uma imensa propaganda contrária, desencadeada pelas corporações – as empresas de energia e muitas outras –, para tentar aterrorizar a população. Diriam que, em caso de criação do tributo, todo tipo de coisa terrível aconteceria. Por exemplo, “você não será mais capaz de aquecer sua casa”… Se isso terá sucesso ou não, dependerá da capacidade de organização dos movimentos populares.
 
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