Showing posts with label SOM NOSSO DE CADA DIA. Show all posts
Showing posts with label SOM NOSSO DE CADA DIA. Show all posts

Thursday, August 29, 2013

Brasil: NEGRAS, MÉDICAS E DOMÉSTICAS

 


No Brasil, a cara define sua profissão, o seu poder e a sua preferência no trânsito da vida profissional. A vinda de tantos médicos e médicas negras para o Brasil é um choque terapêutico para entendermos a profundidade do apartheid brasileiro
 
Marcos Romão – Pragmatismo Político
 
Poderia ser natural em meu Brasil, qualquer criança ou pessoa me perguntar qual a minha profissão, se eu responder, que sou médico, mesmo vestido de branco, feito respondi uma vez à uma balconista negra que me servia café, ela olhou desconfiada e me disse que pensava que eu parecia mais pai de santo, quando lhe afirmei que na verdade sou sociólogo, ela me olhou mais espantada ainda, dizendo, feito o presidente Fernando Henrique?
 
São situações naturais para qualquer negro no Brasil estas que acontecem no dia a dia com a gente, não somos o que somos somos apenas o que nascemos pra ser. Nascemos pra sermos nada ou quase nada.
 
Eu mesmo me flagro volta e meia ao conversar com as pessoas, com uma dúvida interior, que me faz perguntar no íntimo, será que o cara tá acreditando em mim,será que eu estou me apresentando mais do que devia para convencer o cara interlocutor, que eu sou o que sou e tenho a experiência que tenho? Será que não exagero ao me descrever, para convencer ao outro que sou eu mesmo o que sou?
 
Natural prá gente é ser servente, empregado doméstico, supervisor de segurança se estiver de terno e até manobreiro, que alguém entrega a chave enquanto a gente espera a namorada chegar para nos encontrar em um restaurante fino.
Não importa se o interlocutor é negro ou branco, cortamos um dobrado para convencê-lo de que somos o que somos e basta.
 
No meus vinte anos na Europa, quando sentava em um bar, poderia estar ao meu lado uma chanceler da república ou uma empregada doméstica, que se eu não conhecesse pela foto, não saberia quem é quem.
 
Aqui não, se é branco é alguém, se não é branco que nos convença.
 
Aqui no Brasil se tem cara e não se tem cara e a cor da cara ajuda a definir a profissão, a posição e o poder diagnosticado na pessoa que você se confronta. Dependendo da nossa avaliação ou pedimos licença, ou passamos por cima.Quase sempre tem dado certo prá todo mundo. Quando não dá certo e alguém grita racismo, vem logo a desculpa, mas foi um mal entendido, esta não foi a nossa intenção.
 
Aqui a cara define a sua profissão, o seu poder e a sua preferência no trânsito da vida profissional.
 
Até para as crianças que reconhecem tudo no espírito, é um problema identificar uma pessoa negra no seu cotidiano,que não faça parte do universo de pessoas a que esta criança esteja acostumada a ver as pessoas negras.
 
Médicas, engenheiras, arquitetas, presidentas escapam até para estas crianças do universo de domésticas a que elas estão acostumadas a verem suas mães, tias, quando são crianças negras, e babás quando são de crianças brancas que falamos.

Assim quando a jornalista potiguar Micheline Borges causa uma revolta nas redes sociais ao expressar sua opinião sobre os médicos cubanos que estão chegando ao Brasilpara trabalhar no programa “Mais Médicos”. “Me perdoem se for preconceito, mas essas médicas cubanas tem uma cara de empregada doméstica”, como afirmou a repórter, me causa um certo espanto, sobre o porque de tanta revolta do público feissebuquiano, quando ela falou o que a maioria destes leitores pensam.

A infeliz cometeu apenas a besteira de confirmar o racismo que a maioria dos brasileiros carregam dentro do coração todos os dias.
 
Ninguém se espanta nem vai para as redes, perguntar por que só tem médicos brancos no Brasil.
 
Todos estão para lá de mal acostumados em verem cenas de filas negras esperando no SUS, e à 8 horas as filas de brancos estacionando os seus carros e descendo para atravessar aqueles mares negros de pessoas humanas de pele preta ou amareladas de fome, que sempre estão a sua espera.
 
Foi chocante assistir a chegada dos médicos cubanos em São Paulo, a foto estampada nos jornais chocou até a mim, homem vivido neste mundo planetário. Deus dos Céus, um monte de mulheres e homens com as caras dos peixeiros de nossas esquinas, fortes como os entregadores de gás do dia a dia, e com aquele olhar afável das nossas queridas empregadas domésticas, isto não estava no meu enredo de vida como um brasileiro negro, pois eram e são todas e todos médicas e médicos.
 
Quiseram os Deuses, via a transversal do comunismo, dar um choque terapêutico no nosso racismo, tão querido como um calo conservado de nossos avós?
 
E ainda aparecem uns jornalistas, que parecem que descobriram a pólvora do racismo brasileiro, a dizerem-se solidários com os cubanos, que sentem vergonha pelo racismo dos médicos brasileiros. Outros, menos jornalistas também sentem vergonha, como se o assunto não fosse com eles.
 
Meu avô sempre dizia, vergonha de quem não se reconhece racista e lágrimas de crocodilos, não acabam com o racismo, nem enchem copo de quem tem sede por justiça e igualdade.
 
Tem mais de 125 anos que nós negros lutamos para termos acesso às escolas e quanto mais estudamos, mais as escolas de “excelência” ficam brancas.
 
Tem mais de 40 anos que lutamos por cotas, levamos 10 anos na justiça, ganhamos mas não levamos a quina, pois universidades como a de São Paulo, sempre arranjam um jeito de não permitirem nossa entrada.
 
Numa esquina perto de minha casa vejo todo dias dois mares de cores crianças se cruzarem,de um lado uma escola privadas, escola de excelência que forma prefeitos e governadores. As crianças brancas atravessam a rua em direção a zona rica da cidade. Do outro lado tem a Escola Pública , que forma as empregadas domésticas e os peixeiros da esquina.
 
As crianças se cruzam, pretas para as favelas e brancas pra os play grounds. Sinto que estamos enchendo um balde furado. Nossas crianças negras estão marcadas para perderem e morrerem.
 
Que a foto desta negrada cubana estampada nos jornais, tenha o mesmo efeito que a foto de Pelé teve na África do Sul, quando publicada na primeira página em 1958. Foi a primeira foto de um negro na primeira página de um jornal da África do Sul. A foto de Pelé inspirou muitos jovens negros da época, como me disse Desmond Tutu, ao verem que elas, crianças negras poderiam ser o que desejassem. Levaram 30 anos e estão conseguindo.
 
A vinda de tantos médicos e médicas negras para o Brasil (apesar de ser tão pouquinho café neste balde de leite que é o sistema de poder curador do Brasil) é mais do que um exemplo de ação para a saúde física de nosso povo racista até nas entranhas, é um choque terapêutico para entendermos a profundidade do apartheid brasileiro.
 
Aqui deixo como um exemplo a entrevista que fiz no início do ano com uma médica negra brasileira de minha cidade (VER VÍDEO)
 
Leia mais em Pragmatismo Político
 

Friday, August 16, 2013

DEUS, PÁTRIA, AUTORIDADE - Rui Simões (1976) filme completo - Cinema à Séria

 

 
Tal como o Bom Povo Português, este filme de Rui Simões foi realizado com imagens de arquivo. É, sumariamente, uma analise da sociedade portuguesa a partir de pontos vitais como o estado novo, a influência da igreja, a guerra colonial, a revolução de Abril, etc.

Feito sobretudo de material de arquivo, de filmes de actualidades, a narrativa surge na montagem, analisando os principais acontecimentos históricos em Portugal, desde a queda da monarquia, em 1910, até à Revolução dos Cravos, numa perspectiva social de luta de classes. wiki

Rui Simões (Lisboa, 20 de Março de 1944) é um cineasta português que se caracteriza pela prática do documentário histórico, visto como cinema militante, de intervenção política, e ainda pela realização de documentários em vídeo e de gravações de peças de teatro e de bailado. wiki

Description: For this documentary about Portugal's political explosion, Simoes had access to the archives of Portuguese TV, but he has cut the material together in a very different way from its original presentation (most of the archive footage predates the April 1974 coup). In addition, he includes filmed interviews with workers about their conditions, and with others about their own and the Portuguese colonies' part in the downfall of the Caetano regime. The film is less a history than a statement about class realities, and how political power in Lisbon never left the hands of the bourgeoisie. (From Time Out Film Guide)

Realizador: Rui Simões - Narrador: Rui Paulo da Cruz
 
Cinema à Séria no PG
 
A partir de hoje o Página Global vai contemplar,incluir e destacar uma secção de cinema a que chamará Cinema à Séria. Para os cinéfilos não passará de um alerta, talvez para reverem este ou aquele filme. Para os menos interessados em cinema poderá também constituir um incentivo que desperte o interesse pelo cinema. Por filmes portugueses, de outros países lusófonos ou de outras nacionalidades. Afinal a linguagem cinematográfica é universal e assim a devemos encarar e apreciar. Bom apetite. (Redação PG)
 

Friday, August 9, 2013

Portugal: MORREU URBANO TAVARES RODRIGUES – poeta-escritor

 

 
 
Notícias ao Minuto com Lusa
 
O escritor Urbano Tavares Rodrigues, que fazia 90 anos em Dezembro, morreu esta sexta-feira. Autor de diversos romances, Urbano Tavares Rodrigues escreveu também em várias revistas e jornais de renome. A informação foi avançada à agência Lusa pelo amigo do escritor, Ruben de Carvalho.
 
O autor de vários romances, e participações em jornais e revistas, como o Bulletin des Études Portugaises, a Colóquio-Letras, o Jornal de Letras, Vértice, ou o Nouvel Observateur, o escritor Urbano Tavares Rodrigues faleceu esta madrugada de sexta-feira, a apenas alguns meses de completar 90 anos.
 
"Acabei de saber da sua morte e lamento profundamente", disse o vereador comunista da Câmara Municipal de Lisboa, Ruben de Carvalho, camarada de partido do escritor, jornalista e ensaísta Urbano Tavares Rodrigues.
 
A notícia da morte do escritor foi também divulgada pela sua filha, Isabel Fraga, na página de Facebook 'Urbano Tavares Rodrigues - escritor', na qual escreveu esta manhã: "O meu pai acaba de nos deixar. Estava internado nos Capuchos há 3 dias. Não tenho mais informações. Soube agora mesmo".
 
O seu último livro ‘Escutando o rumor da vida seguido de solidão em brasa’ foi lançado há cerca de um ano.
 
Ao longo da sua longa carreira literária, Urbano Tavares Rodrigues recebeu vários galardões, entre os quais, o Prémio Ricardo Malheiros com a obra 'Um Pedrada no Charco'.


Sunday, July 14, 2013

MÚSICO ANGOLANO DIONÍSIO ROCHA COMEMORA 60 ANOS DE CARREIRA




Pedro Dias – Voz da América

O seu último disco pretende ser uma homenagem à mulher angolana

Na comemoração de seis décadas de carreira, Dionísio Rocha colocou no mercado discográfico a sua mais recente obra intitulada “ Mulher Angolana”, uma homenagem a todas as mulheres angolanas.

O disco tem doze faixas musicais cantadas em português e Kimbundu. Temas como “Mulher Angolana”, “ Eu Quero o Mar”, “Eye Ne”, “Aprukutu” entre outros.

O músico angolano considera que “ foi um trabalho em que tentamos imprimir mais qualidade, a nível dos arranjos e da actualização instrumental”.

Dionísio Rocha adianta que “hoje a juventude quer um semba com vida e neste sentido, a opção pela produção de Eduardo Paim, julgo ter sido a melhor. Ele representa com a sua longa experiência, a modernidade estética, e eu a interpretação da tradição do semba”.

Treze anos depois do lançamento do CD “Luandos ao Luar”, eis que Dionísio Rocha oferece aos amantes da música angolana “Mulher Angolana” para comemorar os sessenta anos de carreira.


BANA ETERNO POR QUEM TODOS CHORAM E PRESTAM HOMENAGEM




Bana “será eterno com a sua obra” – Ana Firmino

A Semana (cv)

Ana Firmino, artistande S. Vicente que cantou muitas vezes com Bana no Monte Cara, considerou que o cantor, cujo féretro estará hoje em câmara ardente, na Igreja da Sagrada Família, em Benfica “será eterno com a sua obra”.

A cantora cabo-verdiana conheceu Bana quando foi, “ainda miúda” para Lisboa.” Depois, acompanhei Bana desde sempre”, assevera.

Ana Firmino que, após a morte de Bana foi prestar apoio à sua família, vê com tristeza a perda física, mas não para a cultura cabo-verdiana que fica com a obra do “Rei da Morna”.

Bana, que faleceu na madrugada de sábado aos 81 anos, estará em câmara ardente, a partir das 13h00 de hoje, na Igreja da Sagrada Familia, em Benfica, sendo o seu funeral segunda-feira, com cremação do corpo no Alto de S.João em Lisboa. (OL)

PR representará Cabo Verde nas cerimónias fúnebres do Bana

A Semana (cv)

O Presidente da República e Comandante Supremo das Forças Armadas de Cabo Verde, Jorge Carlos Fonseca, vai representar o Estado de Cabo Verde nas cerimónias fúnebres de Adriano "Bana" Gonçalves, que acontece na Segunda-feira, 15 em Lisboa. O Chefe de Estado será acompanhado pela Ministra das Comunidades, Fernanda Fernandes e pelo Ministro da Cultura, Mário Lúcio Sousa.

*Título PG


Saturday, July 13, 2013

MORREU BANA: FUNERAL REALIZA-SE SEGUNDA-FEIRA EM LISBOA




SBR (JSD) – SMA - Lusa

O funeral do músico cabo-verdiano Bana vai realizar-se na segunda-feira, em Lisboa, informou a embaixada de Cabo Verde.

Em comunicado, a representação diplomática de Cabo Verde em Lisboa manifesta “grande pesar” pela morte de Bana, aos 81 anos, e informa que o velório se vai realizar no domingo, a partir das 13:00, na Igreja da Sagrada Família, em Benfica, onde decorrerá, no dia seguinte, à mesma hora, a missa de corpo presente.

O funeral sairá na segunda-feira, às 14:15, em direção ao Cemitério do Alto de São de São João, “onde o corpo será cremado, segundo o desejo manifestado [por Bana] em vida”, informa a nota da embaixada.

A família expressou o desejo de sepultar em Portugal o "Rei da Morna", como Bana era conhecido, que morreu na sexta-feira à noite, no Hospital de Loures.

Bana, de nome completo Adriano Gonçalves, foi um dos nomes que mais ajudou a projetar a música de Cabo Verde no mundo.

Nascido a 11 de março de 1932, no Mindelo, na ilha de São Vicente, gravou mais de meia centena de discos ao longo da sua carreira, iniciada em 1942, com apenas dez anos, nas ruas e cafés da cidade que o viu nascer.

Monday, July 8, 2013

Portugal: CAVACO TEM “POUCA CULTURA” E É “VINGATIVO”, garante Mário Soares



TSF

Numa referência aos tempos em que Cavaco Silva foi primeiro-ministro, Soares recordou que o atual Presidente «não dizia nada de jeito» nos encontros semanais no Palácio de Belém.

Mário Soares descreveu, esta segunda-feira, o atual Presidente da República como uma pessoa com «pouca cultura» e com caraterísticas vingativas, qualidades que diz que Cavaco Silva demonstrou quando foi primeiro-ministro.

Com a crise política em pano de fundo, Soares recordou os tempos em que era Presidente da República, quando o então chefe do Governo «não dizia nada de jeito» nos encontros semanais no Palácio de Belém.

«Aquilo aborrecia-me um pouco», acrescentou Mário Soares, que considerou que as características de Cavaco Silva tinham consequências na ação política, algo que ficou patente num episódio que envolveu José Saramago.

Referindo-se à presença de Cavaco Silva na Feira do Livro de Bogotá, Soares lembrou que «este nosso Presidente da República esqueceu-se de quem é José Saramago».

«Ele não tem pouca cultura, portanto não foi capaz de dizer uma única palavra. Isso causou-me evidentemente uma tristeza imensa», acrescentou Soares, que classificou Cavaco como uma «pessoa vingativa».

Soares recordou ainda uma referência que Cavaco Silva fez a um «personagem dos Maias», o que lhe deixou a impressão que o atual Presidente da República «nunca tinha loido um livro de Eça de Queiroz».

«Não admira que ele não tenha lido nunca nenhum de Saramago», concluiu Mário Soares.


Friday, June 21, 2013

ACORDA BRASIL! ACORDA RONALDO! ACORDA PELÉ! ACORDA POVÃO!



Flávio Mattel

PAI DANDO RESPOSTA AO RONALDO

Um pai mostra ao futebolista Ronaldo sua filha e a saúde que ela não tem. Contesta palavras de Ronaldo falando “do alto e de conta bancária e barriga cheia demais” acerca do povo que está em levante por todo o Brasil contra as injustiças, contra os milhões gastos na Copa e em estádios de futebol. Ve e escute este pai e multiplique por milhões os pais e mães cansados de serem esbulhados por coroneis, por generais, por ditadores, por políticos sem escrupulos, por ladrões e assassinos de colarinho branco ou fardas a rigor, por imerecidos juízes que mereciam estar dentro de grades, na prisão… Se há quem não entenda o que se está passando no Brasil poderá agora ficar um pouco mais elucidado. E isto, este pai insurgido, é uma infima amostra.

É o que se vê e escuta no vídeo que melhor nos leva a entender o que está a acontecer no Brasil. O povo brasileiro está cansado de ser ludibriado. Os pais e mães no Brasil estão fartos de ver “os do alto” roubando, chacinando, escravizando, cometendo crimes hediondos e no final saírem impunes. O Brasil não está vivendo em democracia. Não é somente pelo facto de possibilitarem eleger certos membros de partidos políticos que a democracia acontece. Falta justiça, falta educação, falta saúde, falta punição para os que cometem crimes e estão alojados nas máquinas partidárias, no Congresso e noutros poderes que uma máfia afinada vai distribuindo em cargos que lhes permita cobrar vantagens. É isso que o Brasil não quer. Nem o Brasil nem os povos por todo o mundo. É contra este estado de criminalidades político-partidárias que vimos cada vez mais o levante das populações. Os protestos estão repletos de razão.

ESCÓRIA DO FUTEBOL MILIONÁRIO

Pelé veio falar de um “deixa pra lá” dessa de contestar a péssima situação dos brasileiros na rua. “Sai da rua, te aliena com a Copa, seja miserável mas feliz” foi o que quis dizer Pelé. Parece que alguns do futebol milionário esqueceram que quase vieram do bueiro, que andavam de pé descalço por a família não ter como os calçar. Pelé era pobre, Ronaldo também não era menino rico… Passaram esses tempos e agora esqueceram sua condição de povo carenciado e vergastado pelas elites. Passaram-se para o outro lado à semelhança de prostitutas(os), de vira-casacas e traidores. Mergulharam numa abastada e bem odorosa piscina de insensibilidade e consideram um exagero que o povo brasileiro continue a sentir-se injustiçado, agora, por eventos de uma FIFA mafiosa, transbordante de corrupções e negócios opacos. Coisa comum no futebol. Os da escória do futebol milionário, os traidores, preferem gastos desmesurados no futebol em vez da implementação da justiça social, das melhorias na saúde, na educação, no pagamento justo daqueles que são a força de trabalho e do progresso do Brasil, os trabalhadores do comércio, da indústria, dos serviços. Os campesinos, os mineiros, os professores, etc., etc.

ROMÁRIO E DECO

Por esse diapasão do antes a Copa que a justiça, a democracia, a liberdade, o trabalho devidamente remunerado, a saúde, a educação, a habitação condigna não alinharam uns quantos do futebol milionário nem outros “famosos”. No caso do futebol Romário já disse sobre as palavras de Pelé e outros o que tinha a dizer e é pelos que estão sendo injustiçados. Deco, também um grande futebolista brasileiro e luso, mostrou que nem é escória nem traidor, muito pelo contrário. 

São alguns os que não esquecem sua condição de povão apesar de na atualidade viverem bem melhor. Serão esses que também contam para junto da maioria sacrificada fazerem com que o Brasil Acorde, e Ronaldo, e Pelé… Todos os que se negam a olhar de frente a injusta realidade brasileira, PÔ, ACORDEM!

Sunday, June 16, 2013

Angola Fala Só - “PRESIDENTE NÃO TEM COLABORADORES À ALTURA” – Antena Aberta



Voz da América

Mais de 80% da população angolana vive pior do que no tempo colonial, disse um ouvinte no programa “Angola Fala Só” marcado por um aceso debate em redor da figura do presidente José Eduardo dos Santos.

Vários ouvintes disseram que o presidente não tem colaboradores à altura das suas responsabilidades, mas outros rejeitaram isso afirmando que a responsabilidade do que vai mal é sempre em última análise do presidente.

A figura do presidente foi com efeito um dos temas que mais discussão causou no programa de estilo  “microfone aberto” em que os ouvintes foram convidados a falarem sobre os problemas nas suas províncias e cidades e também dos progressos registados ou falta deles na reconstrução do país.

Geralmente o programa Angola Fala Só conta com um convidado que responde a perguntas dos ouvintes sobre as questões que ele próprio conhece.

O programa de “microfone aberto” aos ouvintes  foi também marcado por sugestões práticas para se colocar desmobilizados na polícia, para contactos com dirigentes e também para se apoiar Organizações Não Governamentais.

O debate sobre a figura do presidente pode ser exemplificado pela pergunta que o ouvinte Elias Faustino  deixou: “Aqueles que criticam o MPLA e o presidente que me digam qual é o partido que podia ter reconstruído Angola em 10 anos?”

Um outro ouvinte, Mariano Wassuka, disse que o país “não tem rumo” e isso deve-se ao facto do “presidente não ter colaboradores à altura das suas tarefas”.

“Eles é que estão a estragar o nosso presidente,” disse Mariano Wassuka.

“Não hà ética e moral política e sem isso não se faz boa política,” acrescentou.

Mas o ouvinte Mbenguno Daniel disse que culpar “colaboradores” não é desculpa para a má actuação do governo.

“O presidente é responsável e portanto culpado pelos seus colaboradores,” disse afirmando ainda que aqueles que rodeiam o presidente “têm medo” de o criticar porque “quem crítica é culpado”.

O presidente Eduardo dos Santos é eleito dirigente do MPLA sem oposição porque há medo de votar contra.

“Quem é que vota contra quando a votação é de mão no ar?” interrogou Mbenguno Daniel.

Manuel Aleixo Sobrinho foi o primeiro ouvinte a sugerir que desmobilizados das forças armadas sejam integrados na polícia afirmando que o recrutamento para a polícia é feito hoje sem se saber o passado dos recrutas.

“Como é que se sabe que um recruta da polícia não é um delinquente,” disse Manuel Sobrinho que disse que integrar desmobilizados nas forças armadas serviria para pôr fim a essa situação e ao mesmo tempo dar emprego aqueles que serviram nas forças armadas.

João Mulei, ele próprio veterano das forças armadas apoiou a sugestão afirmando que com militares as autoridades sabem sempre se têm ou não “um homem educado”.

O problema disse ele é que “ o partido no poder está virado contra nós” e isso estende-se mesmo aqueles que ainda estão nas forças armadas.

“Os militares não têm condições,” disse, acrescentando que os “generais não olham para o soldado” e o partido no poder “ não liga aos analfabetos”.

Foi o ouvinte Manuel Aleixo Sobrinho  que se insurgiu contra  “ a falta de seriedade” do governo em investigar o que está errado.

Recordou que as autoridades prometeram uma investigação ao desaparecimento há um ano dos activistas Alves Kamulingue e Isaías Cassule e nunc amais se ouviu falar das investigações.

Recordou também o desabamento há meses atrás do edifício da judiciária em Luanda em que foi prometido um inqúeiro  “ e depois como sempre não há resultados”.

“ É preciso seriedade das pessoas que dirigem o país,” disse.

Para Manuel Aleixo embora “não esteja tudo mal” em Angola “80%  da população vive pior do que no tempo colonial, vive em mais miséria do que no tempo colonial”.

Pedro Teca do Uíge sugeriu como meio para se combater o desemprego que o recrutamento governamental dê prioridade a pessoas das zonas onde existem vagas.

Pedro Teca disse que num recente concurso a mais de 80 vagas apenas  “dois ou quatro” eram da região e isso “é inaceitável”.

Serafim Chicomo de Benguela criticou os custos de obras realizadas na sua zona, algumas levadas a cabo por empresas de familiares do presidente.

Serafim Chicomo mostrou grande entusiasmo pelo trabalho da organização “Mãos Livres” que defendeu em tribunal angolanos vítimas de injustiças e sugeriu que a organização criasse uma conta bancária onde os cidadãos pudessem contribuir com qualquer quantia para essas actividades.

Sugeriu ainda que a organização arranjasse meios para que pessoas através de Angola se possam voluntariar para ajudar a organização no seu trabalho.

Alberto Numa do Bié sugeriu que os diversos ministérios criassem meios para os cidadãos poderem transmitir os problemas que vivem e para fazerem sugestões.

Alguns dos ouvintes referiram-se também ao aumento do crime. Mariano Wassuka disse que há zonas de Luanda onde não se circula a partir do cair da noite devido ao crime e falta de segurança e Alberto Numa do Bié exortou as autoridades a tomarem medidas para combater o crime que, segundo disse, tem vindo a aumentar na sua província.

“É preciso que se tomem medidas sérias contra o crime,” disse.


Saturday, June 8, 2013

Portugal – Paulo Morais: “OS POLÍTICOS CORRUPTOS SÃO ENTRE 10 E 15 POR CENTO"

 

Silvia Caneco – Jornal i
 
O vice-presidente da Transparência e Integridade diz que um de quatro políticos foi corrupto no caso dos submarinos
 
A entrevista era para ter sido feito às 11h do dia seguinte, mas Paulo Morais teve de mudar os planos por mais uma vez ter sido chamado como testemunha num processo. É assim desde que se tornou uma das principais vozes contra a corrupção em Portugal. Vice-presidente da Associação Transparência e Integridade - pela qual não recebe nada, nem sequer ajudas às deslocações - lançou há uma semana o livro "Da Corrupção à Crise". Já perdeu a conta às chamadas que recebeu de políticos indignados com o que diz. Às vezes, desliga-lhes o telefone.
 
Como é que alguém que foi político está a combater a corrupção? Isso não é um paradoxo?
 
As pessoas devem combater a corrupção em qualquer circunstância. E se exercem cargos públicos mais obrigação têm de o fazer. Fiz apenas um mandato como vice-presidente da câmara do Porto e passei a campanha eleitoral e todos os anos do meu mandato no mesmo combate. Sempre percebi que, se Portugal não tivesse corrupção, podia ser um país com uns níveis de vida da Suécia ou da Noruega.
 
Esse mandato no Porto foi para esquecer?
 
Só aceitei concorrer porque íamos perder. Era o Fernando Gomes que ia ganhar as eleições. Não estava nas minhas ambições ser autarca. Sendo certo que ganhámos. E sendo certo, porém, que só me convidaram para aquele cargo porque pensavam que íamos perder. Se fosse para ganhar tinham convidado outro. Aí estamos quites. Mas a partir do momento que ganhámos tinha de cumprir. E fi-lo com muito gosto. Enquanto viver em Portugal sempre contrariarei aqueles que são os defeitos da política que obrigam todo um povo a viver mal.
 
Quantas queixas já apresentou?
 
Chegam-me muitas denúncias. O que tenho vindo a fazer é denunciar junto do Ministério Público (MP), sobretudo na área do urbanismo, a que sou particularmente sensível. Serei hoje o maior denunciante de crimes de urbanismo em Portugal.
 
E quantos já teve contra si?
 
Não sei precisar. Neste momento seis ou sete, porque as pessoas se sentem difamadas. O único que chegou até ao fim, de um promotor imobiliário da Figueira da foz, eu ganhei. Sou ainda muitas vezes chamado como testemunha para outras litigâncias. Muitas pessoas bem intencionadas indicam o meu nome como testemunha de processos em que acham que posso ser uma mais-valia. E eu vou, enquanto puder ajudar a que se faça justiça.
 
E os casos que denunciou, já conseguiu que algum chegasse ao fim?
 
Tenho uma panóplia. O Ministério Público tem apreciado e é com alguma perplexidade que vejo alguns arquivados, como o do Metro do Porto. Em determinado momento o Metro do Porto resolveu adquirir uns terrenos no Campo dos Salgueiros. Estavam avaliados na ordem dos 5 milhões de euros. Mas o Metro decidiu pagar quase 9 milhões por um terreno que sabia valer menos de 5 milhões. Fiz uma denúncia, apresentei documentos oficiais, avaliações, actas do conselho de administração do Metro, e o MP entendeu arquivar o processo porque não sabia onde estavam os 4 milhões de euros sobrantes. O povo português foi roubado em 4 milhões só naquele negócio.
 
Não há corrupção no Porto? Pelo menos não temos notícia dela.
 
Não há corrupção em lado nenhum. No crime de corrupção é preciso saber qual o objecto da corrupção, qual o ganho patrimonial, qual é o corrupto, o corruptor, o nexo de causalidade, as conexões. Só há acusações de corrupção se o corrupto e o corruptor forem de braço dado ao tribunal e mesmo assim duvido. Mas nos outros, como peculato ou a prevaricação, pode haver desenvolvimentos, são de acusação relativamente fácil. Mas raramente se abrem inquéritos, quando se abrem raramente há acusações, quando há acusações poucas vezes há julgamentos, quando há julgamentos raramente há condenações e mesmo quando há condenações os indivíduos não são presos.
 
Por que é que isso acontece?
 
Porque as leis são complexas, porque a justiça está desorganizada e funciona de forma medieval. Se entrarmos num tribunal, 70% das pessoas que lá estão estão à espera. Aquilo devia chamar-se palácio da espera e não Palácio da Justiça.
 
Foi difícil marcar esta entrevista. Ainda tem tempo para respirar?
 
Tenho muito que fazer. Sou matemático e isso também influencia a minha organização. Por regra de manhã trato da componente mais académica de investigação. De tarde dou aulas. Depois ao fim da tarde e ao fim-de-semana é que trato da minha vida cívica. A minha função enquanto autor da luta contra a corrupção corre nos meus tempos livres. Tenho uma vida muito preenchida, ainda com um handicap, que é viver no Porto. A minha vida privada começa sábado ao fim da tarde e acaba domingo à noite.
 
Metade de Portugal deve pensar que vem de Direito.
 
Porque estão habituados a que na classe política estejam pessoas de Direito, Economia, engenheiros. Portugal está a precisar de matemáticos, nomeadamente na política, para fazerem bem as contas. É a falta de literacia matemática que permite que as pessoas sejam tão enganadas. Os portugueses ouvem falar de números e acham sempre que é muito dinheiro, mas não têm uma noção exacta. Não sabem que a maior parte da despesa do Estado em 2013 vai ser com juros da dívida pública. Vai-se gastar mais nisso do que em todo o SNS, Educação, todos os salários da função pública. Também não sabem que as autarquias gastam per capita por ano mil euros por cada cidadão. As pessoas deviam questionar-se: qual é a receita? Qual é o benefício na minha qualidade de vida? Raramente é mais que zero. E para onde vão então estes recursos? Cerca de metade vai para pagar às quantidades enormes de boys que lá entram, a outra metade vai para megalomanias, caprichos, obras sem sentido nenhum, corrupção. O aumento da transparência é a primeira das armas de combate à corrupção. Nos Estados Unidos, Reino Unido, Timor, Brasil, todo o país minimamente desenvolvido tem um site onde as pessoas conseguem ver qual é a receita e a despesa da sua administração. A isto chama-se transparência orçamental, que em Portugal não existe. Além disto, é preciso que um edifício construído sem cumprir o planeamento seja demolido ou recuperado para a sociedade a valor zero. É violento? Claro que é. Mas faz-se uma ou duas vezes e tem um efeito dissuasor. Outro exemplo é o BPN: se ele custou aos portugueses 6 mil milhões de euros, é preciso recuperar parte significativa desse prejuízo. Como? Indo a uma sociedade chamada Parvalorem, que herdou a parte má do BPN. É possível fazer uma avaliação do prejuízo induzido pela gestão danosa e obrigar os responsáveis a pagar através do seu património ou através do património que ainda hoje detém, que é a Galilei, uma das sociedades mais poderosas de Portugal.
 
Como é que se gere a Transparência e Integridade?
 
É uma organização muito leve. O objectivo é estudar o fenómeno da corrupção para melhor a conhecer e combatê-la. Temos um pequeno secretariado em Lisboa, um orçamento de poucos milhares de euros, e tudo o resto é trabalhado voluntário. Vivemos de donativos, que têm um tecto, para não ficarmos reféns de ninguém.
 
Não recebe nada? Nem deslocações?
 
Nada. Cada um paga as suas.
 
Onde é que guarda toda a informação que lhe chega?
 
Muita dela é pública, não precisa de um cuidado especial. Aquela mais importante e confidencial normalmente é duplicada, guardada num banco e noutro local.
 
Se tivesse acesso a ela teria manchetes para os próximos três meses?
 
Se as pessoas tivessem ideia da forma como estão em permanência a ser roubadas não só ia ter manchetes todos os dias como íamos ter revoluções todos os dias. O chumbo de quatro normas do Orçamento pelo Tribunal Constitucional terá representado um buraco de mil milhões de euros. Isso foi só o que o Estado português pagou a mais pelas PPP rodoviárias num ano. Nem foi o que pagou, foi o que pagou a mais. Nas mesmas PPP está previsto que haja uma compensação à diminuição da sinistralidade e multas pelo aumento de sinistralidade. Acontece que são compensados de maneira distinta. Numa SCUT como a A28, se a sinistralidade tiver um aumento de 10% o concessionário terá de pagar uma multa de cerca de 600 mil euros, mas se diminuir 10% pode receber 20 e tal milhões de euros.
 
Como é que se aceitaram estes contratos? Houve falta de matemáticos?
 
Quem pôs lá aquelas fórmulas, ou não percebe nada de matemática, e é incompetente, ou não é sério. Com uma Polícia Judiciária e um MP actuante era prender a pessoa que pôs ali aquela fórmula.
 
O problema é que continuam a ser investigadas e estamos a falar de contratos muito técnicos. Os investigadores têm preparação?
 
Devem socorrer-se de ajuda técnica e têm-no feito. Já forneci às entidades alguma informação, é preciso é que a utilizem. Noutros ordenamentos jurídicos com outro tipo de organização e legislação as coisas são bem mais rápidas. Veja-se o caso dos submarinos.
 
Na Alemanha já houve condenados, aqui nem acusados há.
 
Houve corrupção, ponto final, que já foi provada pelos tribunais alemães. Fico desgostoso por as investigações serem tão lentos, mas fico perplexo por as pessoas envolvidas não quererem esclarecer o assunto. A aquisição dos submarinos dá-se entre o governo de Guterres, tendo como ministro o Rui Pena, e o de Durão Barroso, com Paulo Portas a ministro da Defesa. Pelo menos um destes quatro senhores ou é corrupto ou é cúmplice. Como é sabido quem compra submarinos não é o porteiro do ministério. Dois deles têm cargos internacionais. Um deles é ministro dos negócios estrangeiros. Como é que estas pessoas se permitem a representar Portugal internacionalmente com a suspeição de que estão ligadas a casos de corrupção?
 
Nenhum deles alguma vez foi ouvido no processo. Estas pessoas são protegidas?
 
É pior que isso. Há procuradores que iniciam inquéritos que envolve gente importante. O que se diz é que não têm meios. Acontece que o caso dos submarinos já não é um caso de justiça, é um caso de regime. O governo, o parlamento, o presidente da república, tinham toda a obrigação de esclarecer este caso. Haver corrupção provada na aquisição dos submarinos e em Portugal não acontecer nada? Isso é do regular funcionamento das instituições? Isto não é um problema do aparelho judicial, é bem mais profundo.
 
Há políticos honestos?
 
Há, claro que há. Eles dividem-se em três grupos: os corruptos são uma minoria - serão 10% e 15% - só que é uma minoria que manda na maioria do dinheiro. Depois, há do outro lado da vida pública, um pequeno grupo de resistentes. No meio há uma quantidade imensa de cúmplices que são medrosos, têm medo de perder as poucas migalhas que têm pelo facto de serem políticos. Dá um estatuto social nalguns locais, uns bilhetes para o cinema e para o teatro, consegue-se mais depressa fazer obras na casa da sogra.
 
E os que cooperam podem vir a ser corruptos mais tarde?
 
Acontece muitas vezes serem absorvidos pelo sistema.
 
A corrupção tem partido?
 
Não. Ninguém escapa, depois é evidente que as responsabilidades são proporcionais ao peso que cada partidos tem. Bastará ver que não encontra no parlamento partidos que combatam veementemente a corrupção. Porque será?
 
O poder local é o mais permeável?
 
As câmaras são as maiores agências de emprego do país. Nos concelhos com menos de 10 mil eleitores a questão é ainda mais grave porque nesses o maior empregador é a câmara. O segundo maior ou é a misericórdia local ou uma instituição de solidariedade social. O terceiro é uma média empresa mas que está permanentemente a solicitar autorizações e licenças à câmara. Cria-se aqui uma rede clientelar em que só tem acesso a emprego quem é afilhado do presidente da câmara, sobrinho do presidente da câmara, membro do partido do presidente da câmara.
 
E como é que isto se extermina?
 
Quando os negócios do urbanismo deixarem de dominar as câmaras municipais. A esta hora, em muitos gabinetes, estão a redesenhar-se planos directores municipais para valorizar terrenos.
 
Esses negócios do urbanismo deviam deixar rasto. No caso de Joaquim Raposo, na Amadora, o caso acabou arquivado ao fim de dez anos.
 
Nos crimes de urbanismo a investigação é simples. Tenho mostrado essa perplexidade a procuradores que são meus amigos. A testemunha do crime é inamovível. O prédio não foge, não tem pernas. Bastará ver se não cumprir o planeamento por ordem de quem é que se emitiu aquela licença, qual a data do documento que permitiu o alvará de loteamento, qual era o organigrama da câmara nesse dia, qual o regime de delegação de competências. Com estes três papelinhos está identificado o responsável. Sucede que a maioria das investigações acaba no momento em que devia começar.
 
As queixas que apresentou em relação ao Porto acabaram todas arquivadas.
 
A maioria das denúncias que fiz têm a ver com pressões que sofri quando era vereador do Urbanismo. E essas foram arquivadas. Não entendo porquê, pois acontecia-me ter reuniões com membros do governo cuja primeira preocupação era tratar de assuntos urbanísticos deles ou dos amigos. Não acho que vereadores das maiores câmaras do país se devam reunir com membros do governo para tratar de assuntos particulares. Mesmo se a pretensão fosse levar a cabo operações urbanísticas legais a sua atitude era ilegítima. Ninguém pode enquanto governante andar a tratar da vida particular.
 
Mas havia documentos?
 
Eram coisas muito fáceis de sustentar. Havia uma tentativa permanente de me influenciar a aprovar operações urbanísticas ilegais, o que obviamente eu não podia fazer. A lei não permite, a minha consciência muito menos, e tinha obrigação de as denunciar.
 
Se esses nomes que o pressionaram viessem para a praça pública ficaríamos chocados?
 
Sim, nalguns casos. Há aí muita gente na política com um ar muito sisudo que não é sério. O Dr. Oliveira Salazar passou uma mensagem à sociedade portuguesa de que para uma pessoa ser séria e competente tem de ter um fato cinzento, uma gravata escura, ser magra de preferência, e ter um certo ar de mal disposto. Do outro lado, está o político bonacheirão e incompetente. Na primeira linha estão Cavaco Silva, Manuela Ferreira Leite. Na segunda, Mário Soares, António Guterres. Oliveira Salazar percebendo isso deu um ar de pessoa séria e que só tinha 40 contos no banco quando à volta dele era só gente a roubar.
 
Tem muitos inimigos?
 
Tenho acumulado muitos. Na classe política portuguesa, quando enfatizo alguns aspectos que até são públicos, algumas pessoas telefonam-me indignadas. Explico-lhes que o meu ponto de vista é claro, que se sentem ofendidos podem recorrer para os tribunais, agora não peçam para eu calar aquilo que julgo que as pessoas querem saber. Quando são menos bem educadas desligo-lhes o telefone. Tem acontecido algumas vezes. E depois há um terceiro grupo de pessoas que são aquelas que são ainda mais simpáticas comigo na esperança de que não venha a falar delas. Não vale a pena.
 
Às vezes não se sente uma espécie de Dom Quixote a lutar contra moinhos de vento?
 
Não estou sozinho. Ainda assim, o combate à corrupção é uma maratona, não é uma corrida de 100 metros. É um caminho lento, em que os resultados só se começarão a fazer sentir quando se sentir nas ruas uma forte censura social à corrupção. Quando acontecer o que acontecia em Itália em que a máfia dominava a política. Aí eles entravam em restaurantes e atiravam-lhes moedas de cêntimos. Nos últimos dez anos, tivemos uma depreciação enorme nos indicadores internacionais de transparência. Em 2000 ocupávamos o 23º lugar, em 2013 o 33º. No meu plano pessoal fiz um contrato com a minha mulher: se daqui a quatro ou cinco anos não houver uma verdadeira inflexão neste fenómeno eu é que me vou embora. Não tenho resistência psicológica para ver o meu país a afundar-se, as pessoas pobres a ficarem miseráveis, a classe média a desaparecer, toda a gente a viver mal e eu a olhar. Não quero que os meus filhos e os netos que hei-de ter vivam num país que está condenado a ser a Albânia da Europa Ocidental.
 
A corrupção é uma causa da crise mas por outro lado não deixa as pessoas mais vulneráveis à corrupção?
 
É verdade. Mas as pessoas não devem ter remorsos de ter gasto acima das suas possibilidades - isso representa apenas 15% da dívida privada. Devem sentir sim uma raiva genuína pelo facto de o Estado ter andado a viver acima das nossas possibilidades e uma série de grupos económicos a alimentar-se da manjedoura que é o orçamento do Estado. E andaram-se a fazer negócios ao nível do urbanismo e a atribuir lugares aos apaniguados do partido. Quem manda nisto tudo? Os poderes económicos que mandam no sistema. Aqueles que não tendo o poder na mão têm a mão no poder.
 
Há sectores mais permeáveis à corrupção?
 
O sector financeiro e os promotores imobiliários são os que beneficiam mais.
 
Há falta de transparência na contratação pública dos grandes escritórios de advogados?
 
Há benefício a algumas que depois montam a teia que mantém a corrupção. O código de contratação pública foi feito pela sociedade Sérvulo Correia, que já facturou em pareceres 8 milhões de euros para explicar o que eles próprios fizeram. Não bastasse isso, depois ainda são estes que vão vender aos privados alçapões que introduziram na própria lei. E ainda vão litigar para os tribunais com as leis que fizeram.
 
E houve falta de transparência nas privatizações deste governo?
 
A opacidade foi absoluta. Uma das preocupações que manifestámos junto da troika foi justamente no âmbito das privatizações: ou se faziam como na bolsa em leilão competitivo, ou então o que tinha de acontecer era uma avaliação independente, internacional. Não aconteceu nada disto. O governo decidiu de forma opaca os processos de privatização. No caso da alienação de capital da EDP, foi nomeada uma comissão constituída por Daniel Bessa e outros, só que era governamental. Obviamente que a entidade que no parlamento devia fiscalizar é a comissão de acompanhamento do programa da troika. Mas nessa, para avaliar o processo de privatização da EDP, temos Miguel Frasquilho, que pertence ao Grupo Espírito Santo e à sociedade que assessorou os chineses na compra da EDP; Adolfo Mesquita Nunes, que pertence à sociedade de advogados Morais Leitão, Galvão Teles e Associados, que trabalhava para o governo nas questões da EDP e trabalha para a EDP. Tem ainda um deputado chamado Pedro Pinto cuja actividade profissional principal é ser consultor em duas empresas que dependem da EDP. Ou seja, esta comissão é constituída por pessoas que dependem da EDP ou vão assessorar os chineses na compra da EDP. Obviamente que também não é esta comissão que vai fiscalizar o processo. Mesmo o conselho de prevenção da corrupção apareceu a fiscalizar quando já estava concluído. Ou seja, veio fazer fiscalização a posteriori, o que em termos semânticos é um pouco estranho. Qual foi a transparência do processo? Nenhuma. Se foi sério não sei, mas transparente não foi e foi tao pouco claro que ao fim de três meses já andava o MP a investigá-lo.
 
Sempre que há um mega processo em Portugal de fraude e branqueamento de capitais abre-se um programa de repatriamento de capitais. Isto não é estar a perdoar crimes?
 
Isso é prática em muitos países. O problema é que só fazem isso nas pequenas fugas. Façam nas grandes. Defendo que se os donos da ex-SLN quiserem devolver 3 mil milhões de euros ao Estado português devem ser amnistiados.
 
Como se explica que um povo continue ao lado de um político condenado, como acontece em Oeiras?
 
Nos concelhos com seis mil eleitores e em que 400 pessoas trabalham na câmara, a rede de interesses e de favores é de tal ordem que se sobrepõe a uma votação livre e democrática. Nos concelhos grandes o que acontece é que a corrupção instalou-se de tal forma que os cidadãos já estão tão descrentes que a probabilidade de ter um político corrupto é muito grande. Entre ter um político que não faz nada e um corrupto que faz preferem um que faz. Os cartazes do Ademar de Barros quando concorreu a governador do Estado de São Paulo diziam isso mesmo: Ademar de Barros rouba mas faz. É um sinal da total deterioração da democracia.
 
 

Saturday, June 1, 2013

Angola - Silva Mateus: "Agostinho Neto não é herói, nem humanitário" – “Angola Fala Só”




O primeiro presidente de Angola Agostinho Neto não foi “nem herói nem humanitário”, disse o presidente  da Fundação 27 de Maio de Angola o General  Silva Mateus.

O general falava no programa “Angola Fala Só” sobre os acontecimentos de 27 de Maio de 1977 quando uma facção do MPLA liderada pelo Comandante Nito Alves esteve envolvida na organização de uma manifestação popular que as autoridades dizem ter sido na verdade uma tentativa de golpe de estado.

Silva Mateus recordou que foi o presidente Agostinho Neto quem ordenou a perseguição aos “fraccionistas” o que resultou no fuzilamento ou desaparecimento de dezenas de milhar de pessoas.

“Não se pode chamar de humanitário  ou de herói a uma pessoa que ordena fuzilamentos sem julgamento,” disse o general. Ele próprio esteve preso após a alegada intentona.

O general recordou que antes do 27 de Maio de 1977 o MPLA encontrava-se profundamente dividido, sendo uma facção liderada por Nito Alves e negou que este e os seus apoiantes tivessem tentado levar a cabo um golpe de estado.

“Não houve tentativa nenhuma de golpe de estado, houve uma tentativa de manifestação de que foi silenciada a tiro,” disse.

Para o general Mateus nesse dia estava programada uma manifestação popular a favor de Nito Alves tendo sido isso que resultou nos confrontos.

Silva Mateus negou que os apoiantes de Nito Alves tivessem sido responsáveis pelo assassinato de alguns dos membros do governo como o ministro das finanças Saidy Mingas no dia da alegada tentativa de golpe.

Interrogado  pelo ouvinte Jorge Muata que falava de Luanda sobre se o actual presidente José Eduardo dos Santos teve algum papel nos acontecimentos que ensanguentaram o país, Silva Mateus disse que antes dos acontecimentos de 27 de Maio e face às crescentes divisões dentro do partido, tinha sido decidido criar uma comissão de investigação para vêr se “existia ou não fraccionismo dentro do MPLA”.

José Eduardo dos Santos disse o general era o coordenador dessa comissão que não chegou a conclusão nenhuma após 30 dias como requerido e após outros 30 dias  “não apresentou um relatório concludente”.

Para Silva Mateus  foi essa “comissão” que permitiu que o presidente Neto e um dos seus mais próximos colaboradores, Lúcio Lara determinassem a existência do “fraccionismo”.

O general recordou que se estava próximo da realização  do congresso do MPLA e que devido à existência de duas alas, uma delas liderada por Nito Alves, havia que eliminar esta facção porque esta facção era  “popular  ou se assim o quiserem populista”.

“A facção de Nito Alves tinha que morrer antes do congresso,” disse.

O general confirmou que Nito Alves contava com o apoio da União Soviética. As simpatias tinham sido fortalecidas por Nito Alves que tinha representado o MPLA num congresso do Partido Comunista da União Soviética, PCUS.

Após o 27 de Maio de 1977 estudantes angolanos que estavam a estudar nos países europeus então sob dominação comunista tinham sido repatriados e fuzilados.

“Um estudante que estava na União Soviética ou na Roménia participou numa tentativa de golpe de estado?” interrogou o general pra sublinhar o seu ponto de vista que não houve qualquer tentativa de tomar o poder pela força.

Os cubanos tinham intervindo ao lado da facção do presidente Neto porque estavam em Angola como “mercenários”, acrescentou

O general disse Nito Alves e outros seus colaboradores foram enterrados na fortaleza de São Miguel em Luanda após terem sido fuzilados sumariamente.

A sua fundação estima que cerca de 80.000 pessoas foram mortas após o 27 de Maio de 1977. O governo teria informado que 30.000 “desapareceram” das prisões.

O general Silva Mateus reconheceu que muitas das mortes foram causadas por “excesso de zelo” e também por “rixas pessoais” e disse não ser importante agora elaborar-se uma comissão da verdade, mas sim “estabelecer o diálogo e a discussão” para se resolver as questões humanitárias associadas ao caso.

Entre estas questões mencionou a ajuda a familiares das vítimas e o reconhecimento de que foram mortos.

O MPLA deve reconhecer que isto não é uma questão interna do partido mas sim uma questão nacional, afirmou

O general Silva Mateus disse não acreditar no entanto que o modo de governar do partido no poder tenha mudado.

Há apenas uma “democracia de fachada”, disse  em resposta a uma pergunta de um ouvinte sobre o desaparecimento dos activistas Alves Kamulingue e Isaías Cassule há um ano atrás.

“O regime não mudou desde 1975,” disse o general.

“Eles têm medo do povo e é por isso que não se pode permitir manifestações, é por isso que elas são reprimidas,” disse.